terça-feira, 15 de janeiro de 2013
Erro
Dava sua habitual volta pelo shopping, ao sair do trabalho. E, como
sempre, pensava naquilo tudo, no sentido daquilo tudo. Seus fones lhe
davam uma certa segurança de todos aqueles estranhos que perambulavam
por
ali. Pessoas, em sua maioria em grupos, conversando, rindo, passeando,
de forma totalmente frívola. Não pôde evitar de achá-los
completos imbecis. Em seguida se sentiu arrependida e mais compreensiva.
Por que estava amarga? Não era a primeira vez. Bom, esses pensamentos
vêm e vão, não é novidade. "Eles ajudam a sentir o mundo", pensou.
Talvez ela quisesse, no fundo, ser/estar como aquelas criaturas. A
futilidade era bastante atraente, e não raro ela também se entregava a
ela. Era uma válvula de escape. Assim, seus pensamentos não a
pertubariam como usualmente o fazem. Fugir deles era prática comum. O
fazia constantemente, ou com uso de entorpecentes (bom, às vezes era até
pior... Mas só ás vezes) ou se entregava a todo o tipo de bobagens e banalidades. Tinha medo de mergulhar em si mesma. Porém achasse ser de
extrema urgência uma volta à terapia. Ficava em cima do muro. Achava que
poderia ajudar... Mas ajudar em quê? A desenterrar coisas que ela sabia
que existiam, mas que não tinham forma definida, embora o contorno
fosse demasiadamente escuro. Não, não ajudaria. Talvez com o tempo... As
primeiras sessões seriam de um masoquismo cujas nuances de dor ela só
podia ter vaga ideia. No geral, andar, perambular sozinha era algo que
acontecia frequentemente. Por mais que ela estivesse indo a algum lugar,
ou seja, tivesse um fim, ela sentia como que estivesse solta. Sem
objetivo, sem fio condutor... Embora fosse bastante apaziguador. Colocava as ideias no lugar. A
confusão mental em que vivia metida diminuia, um pouco. Que
contraditório. A terapia de andar dava a sensação de não servir para
nada. O andar em si, na verdade. Outras terapias também soavam ser
assim. De todo, nada servia. Só as ocasionais retiradas da realidade.
Não amenizavam, na verdade, já que depois tudo voltava. Ou coisas novas e
igualmente bestiais (mas não menos humanas, por isso) surgiam. Mas serviam para, naquele período, não
pensar. Estava na escada rolante. Pensava no seu emprego. Ficar
trancafiada num escritório, mais de 8 horas por dia, 5 dias na semana,
não era exatamente seu ideal de felicidade. Não detestava o trabalho em
si, mas todo a estrutura inerente a ele. Se pudesse trabalhar em casa... O
que era mais sem sentido era o fato de ser "obrigada" a passar todo esse
tempo com pessoas estranhas, pessoas com quem não tinha afinidade, mais
tempo do que passava com sua família, seus gatos, seus amigos.
Principalmente: mais tempo do que passava sozinha. Ainda andando - não
tão só, afinal os fones já eram quase parte integrante do seu corpo e,
por conseguinte, a música - virou numa esquina no shopping. Deu de cara
com um pai e sua filhinha, uma menina linda... Era bebezinha ainda,
rostinho lindo, toda alegrinha... Continuou andando, passou por eles...
Lembrou do que ia fazer: comprar cigarro. "Minimizar as chances de ter
uma dessas, um dia", pensou.
terça-feira, 18 de setembro de 2012
How life runs
Voltando ao blog mais de um ano após última postagem, para o que ao certo não sei. Quero escrever, desabafar, e publicar. Porque os dois primeiros nunca deixei de fazer, embora de forma secreta. Depois de um tempo comecei a me envergonhar de publicar o que escrevo, e pelo motivo mais batido: medo de não gostarem. É uma terapia, sem dúvida. Não preciso publicar tudo para ser efetivo. Sempre publiquei o que escrevia porque gostava, e porque andava numa profusão de criatividade, coisa que, acho eu, me abandonou... Então fiquei só com a parte do desabafo. E, voltando aqui, vi que eu era boa... Digo, pra mim. Gosto de me ler. De verdade. Inclusive, gosto de passar tempo comigo mesma. Eu rio das minhas piadas, eu rio das minhas palhaçadas, converso comigo mesma... Não acho que seja um sintoma de algum tipo de distúrbio. Vejo mesmo que venho preferindo a mim mesma que a outros seres humanos. Falta de paciência? Sim. Mas não é que me ache a última bolacha do pacote, nem cobro nada de ninguém. Muitas vezes me enfadonho com outros, e com poucos consigo alguma companhia de qualidade, boa conversa, estimulante, que faz valer a pena. O que está cada vez mais raro. Então, fico aqui com minha música, meus gatos e mim mesma. Não vou ser hipócrita, tem momentos que sinto falta de presença. Mas então penso na máxima 'antes só do que má acompanhada'. E como sei que fisicamente só me interessam pouquíssimas pessoas, e como sei que é difícil vê-las, não me apoquento. A vida saberá a hora certa. Ou, alguma hora acontece. Sempre acaba acontecendo. Esses encontros memoráveis e quase metafísicos... Eles existem. Por enquanto muito ar nos separa, mas algum dia, enquanto não mortos, há de acontecer. A vida cada dia que passa se apresenta mais estranha. Pressões, necessidades, vontades. E preciso responder à questões de ordem material, o que me perturba imensamente. Gostaria de que essa parcela realmente não existisse. Do alto dos meus 28 anos vejo que me falta ânimo para lidar com isso. Vejo que não consigo me sentir atraída por nada que possa garantir meu sustento, e o pouco que sei fazer e acho que consigo fazer sem surtar não se apresenta com facilidade... Perdida? Não sei, porque sei o que não quero. Agora, o que quero... Não consigo responder a isso também. Digo, que quero e que possa me sustentar com alguma facilidade. Sinto que falta comprometimento da minha parte para com a parte séria da vida. A parte burocrática. A parte da mulher eficiente, que precisa se virar sozinha. Baixa autoestima? Talvez. Uma intuição (errônea ou não) de que não serei capaz de corresponder ao que esperam de mim, de frustrar os outros, de falhar, e assim me sentir mal, visto que junto com a falta de compromisso anda uma autocobrança excessiva... Acho que é normal, acontece a todos... Embora em muitos momentos eu me ache magnânima! (que raios de palavra!)
Sinto-me ao mesmo tempo flutuando e fortemente presa. Melhor talvez não pensar muito sobre, uma hora as coisas acontecem, uma hora vejo que tem uma brecha por onde vislumbrarei algo que valerá a pena correr atrás... Tentarei escrever mais, talvez publicar coisas antigas que tenho aqui. Sinto que poderia ficar aqui horas discorrendo sobre minha vida, o que é um paradoxo, visto que não acontece nada nela! Nada de relevante... Incrível como uma cara de paisagem às vezes mantém um tornado por detrás...
E... publicando sem mais delongas e revisões.
P.S.: por que diabos eu tenho essa mania de colocar títulos em inglês? Como se encerrasse alguma explicação valiosa...
Sinto-me ao mesmo tempo flutuando e fortemente presa. Melhor talvez não pensar muito sobre, uma hora as coisas acontecem, uma hora vejo que tem uma brecha por onde vislumbrarei algo que valerá a pena correr atrás... Tentarei escrever mais, talvez publicar coisas antigas que tenho aqui. Sinto que poderia ficar aqui horas discorrendo sobre minha vida, o que é um paradoxo, visto que não acontece nada nela! Nada de relevante... Incrível como uma cara de paisagem às vezes mantém um tornado por detrás...
E... publicando sem mais delongas e revisões.
P.S.: por que diabos eu tenho essa mania de colocar títulos em inglês? Como se encerrasse alguma explicação valiosa...
segunda-feira, 5 de setembro de 2011
De pessoa pra Pessoa
"Agir, eis a inteligência verdadeira.
Serei o que quiser. Mas tenho que querer o que for.
O êxito está em ter êxito, e não em ter condições de êxito.
Condições de palácio tem qualquer terra larga, mas onde estará o palácio se não o fizerem ali?" ~ Fernando Pessoa
Querido Pessoa, é uma bela ideia. Nos dá muito o que pensar: Se me permite, exporei minhas reflexões:
Nem sempre, é agir. Nem sempre, o êxito tem que exitar. Querer não é poder. Querer é verbo que se encerra em si mesmo. Querer é querer. A ação, muitas vezes, independe. Ou, ao contrário, depende, depende de coisas até de mais. Claro que, agindo, colocando em concordância o querer e o agir, temos uma baita chance de alcançar felicidade, mesmo que seja a felicidade da boa resignação, aquela do "eu tentei". Para alguns. Ou, para todos, mas em alguns momentos. Para outros, e outros momentos, a inércia é a trazedora de, se não felicidade, pelo menos não infelicidade. O gosto amargo que pode haver pelo arrependimento do não feito muitas vezes é mais fácil de digerir do que o insucesso da empresa do desejo. Covardia? Talvez. Mas, então, agir se igualaria a coragem? Coragem seria a "inteligência verdadeira"? Creio que há momentos e momentos, Pessoa. Não sou uma das pessoas mais ponderantes que existe, pelo contrário. Convivo diariamente com o arrependimento do feito e do não feito. E pra um ou outro, dependo antes do ânimo da minha alma (precisei da redundância) de, quase sempre, impulsivamente, fazer tal coisa. E se não faço, também. A ausência de ação é, frequentemente, impulsiva...
E o palácio? O palácio continuará, lindo e deslumbrante, bem erguido no campo da imaginação. Porque nem toda choupana ou casa, nem todo palácio, ou castelo, ou o Valhalla que seja, tem que ser, ou tem como ser, construído na "terra larga" da realidade.
A fim de ilustrar um pouco, cito essa bem providencial sentença do meu querido Drummond: "A minha vontade é forte, mas a minha disposição de obedecer-lhe é fraca."
E o ser humano segue...
Serei o que quiser. Mas tenho que querer o que for.
O êxito está em ter êxito, e não em ter condições de êxito.
Condições de palácio tem qualquer terra larga, mas onde estará o palácio se não o fizerem ali?" ~ Fernando Pessoa
Querido Pessoa, é uma bela ideia. Nos dá muito o que pensar: Se me permite, exporei minhas reflexões:
Nem sempre, é agir. Nem sempre, o êxito tem que exitar. Querer não é poder. Querer é verbo que se encerra em si mesmo. Querer é querer. A ação, muitas vezes, independe. Ou, ao contrário, depende, depende de coisas até de mais. Claro que, agindo, colocando em concordância o querer e o agir, temos uma baita chance de alcançar felicidade, mesmo que seja a felicidade da boa resignação, aquela do "eu tentei". Para alguns. Ou, para todos, mas em alguns momentos. Para outros, e outros momentos, a inércia é a trazedora de, se não felicidade, pelo menos não infelicidade. O gosto amargo que pode haver pelo arrependimento do não feito muitas vezes é mais fácil de digerir do que o insucesso da empresa do desejo. Covardia? Talvez. Mas, então, agir se igualaria a coragem? Coragem seria a "inteligência verdadeira"? Creio que há momentos e momentos, Pessoa. Não sou uma das pessoas mais ponderantes que existe, pelo contrário. Convivo diariamente com o arrependimento do feito e do não feito. E pra um ou outro, dependo antes do ânimo da minha alma (precisei da redundância) de, quase sempre, impulsivamente, fazer tal coisa. E se não faço, também. A ausência de ação é, frequentemente, impulsiva...
E o palácio? O palácio continuará, lindo e deslumbrante, bem erguido no campo da imaginação. Porque nem toda choupana ou casa, nem todo palácio, ou castelo, ou o Valhalla que seja, tem que ser, ou tem como ser, construído na "terra larga" da realidade.
A fim de ilustrar um pouco, cito essa bem providencial sentença do meu querido Drummond: "A minha vontade é forte, mas a minha disposição de obedecer-lhe é fraca."
E o ser humano segue...
sexta-feira, 17 de junho de 2011
Parêntesis
Schopenhauer sobre o uso de parênteses: "Se é rude interromper uma pessoa que está falando, não é menos rude interromper a si mesmo."
Caso ele fosse inteirado do cotidiano de uma agência de publicidade, e adindo, caso ele fosse revisor de textos/redator, assustar-se-ia ao saber que parênteses, além do dito, carregam um teor pejorativo, e não por rudeza de interrupção, mas por fazer quaisquer informações perderem seu suprassumo grau de importância. E contrariando o digníssimo, acho parênteses superválidos (não são exatamente uma interrupção, mas um plus de informação ao dito anteriormente... Que, por alguma razão estética ou filosófica ou ideológica, achou-se por bem que fosse dito desse modo, como se ciciando...), mas eu sou suspeita pra dizer, sou viciada em parênteses (que até pelo símbolo, traduz sua função de sussurro, mas não menos importante: cada parêntese não se parece cada uma das mãos, fazendo um arco ao redor da boca, para se falar mais baixinho?) e, sou alguém (no momento), ao contrário do autor da frase, vendo o copo meio cheio... =)
Caso ele fosse inteirado do cotidiano de uma agência de publicidade, e adindo, caso ele fosse revisor de textos/redator, assustar-se-ia ao saber que parênteses, além do dito, carregam um teor pejorativo, e não por rudeza de interrupção, mas por fazer quaisquer informações perderem seu suprassumo grau de importância. E contrariando o digníssimo, acho parênteses superválidos (não são exatamente uma interrupção, mas um plus de informação ao dito anteriormente... Que, por alguma razão estética ou filosófica ou ideológica, achou-se por bem que fosse dito desse modo, como se ciciando...), mas eu sou suspeita pra dizer, sou viciada em parênteses (que até pelo símbolo, traduz sua função de sussurro, mas não menos importante: cada parêntese não se parece cada uma das mãos, fazendo um arco ao redor da boca, para se falar mais baixinho?) e, sou alguém (no momento), ao contrário do autor da frase, vendo o copo meio cheio... =)
segunda-feira, 13 de junho de 2011
Perguntar ofende?
Em certos casos, pode até não ofender propriamente, mas com certeza causa desconfortos e/ou estragos. É bem curioso o processo... Porque, teoricamente, perguntamos pois não temos a certeza, não sabemos de alguma coisa. Mas a pergunta quase sempre ocasiona, na parte perguntada, um julgamento nem sempre verdadeiro, de que a parte que pergunta já tem um juízo preestabelecido, um “pré-conceito”. Afinal, perguntas são palavras... E toda palavra tem sua carga, potencialmente negativa ou positiva, dependendo de quem a usa, como e quando.
Mas, principalmente, depende do ouvinte. A interpretação pode causar danos irreparáveis nos mais diversos âmbitos da nossa vida.
O mais engraçado é quando uma pessoa faz uma pergunta e a outra responde com outra pergunta, acusando a pessoa de alguma coisa que ela nem sabe direito, porque, afinal, ela está perguntando!
Ou nem responde com outra pergunta, mas com ofensas e coisas das mais absurdas, já entrando em um processo cognitivo louco de interpretação, que na maior parte das vezes foi ocasionado pelo calor do momento, não tendo em nada a ver com a realidade da pessoa que perguntou! Aí, podemos dizer sim, que perguntar ofende... a quem pergunta. rs
E o pior que depois fica difícil restabelecer o statu quo da parte que pergunta perante a parte perguntada, visto que esta já se encontra maculada com a suposta ideia que fez da fonte da pergunta.
E mais: às vezes a pergunta (PODE acabar) acaba fazendo a parte perguntada responder a questões não questionadas pelo inquiridor. Pode ocasionar uma análise profunda da psiquê da parte perguntada... Como um esplêndido ato falho.
Quem pergunta, óbvio, estabeleceu alguma ideia. Mas só parte dela. Se já tivesse a resposta, não teria perguntado. Dã.
O ser humano é digno de aplausos mesmo. Dos mais enfáticos e escandalosos e, claro, sarcásticos.
Mas, principalmente, depende do ouvinte. A interpretação pode causar danos irreparáveis nos mais diversos âmbitos da nossa vida.
O mais engraçado é quando uma pessoa faz uma pergunta e a outra responde com outra pergunta, acusando a pessoa de alguma coisa que ela nem sabe direito, porque, afinal, ela está perguntando!
Ou nem responde com outra pergunta, mas com ofensas e coisas das mais absurdas, já entrando em um processo cognitivo louco de interpretação, que na maior parte das vezes foi ocasionado pelo calor do momento, não tendo em nada a ver com a realidade da pessoa que perguntou! Aí, podemos dizer sim, que perguntar ofende... a quem pergunta. rs
E o pior que depois fica difícil restabelecer o statu quo da parte que pergunta perante a parte perguntada, visto que esta já se encontra maculada com a suposta ideia que fez da fonte da pergunta.
E mais: às vezes a pergunta (PODE acabar) acaba fazendo a parte perguntada responder a questões não questionadas pelo inquiridor. Pode ocasionar uma análise profunda da psiquê da parte perguntada... Como um esplêndido ato falho.
Quem pergunta, óbvio, estabeleceu alguma ideia. Mas só parte dela. Se já tivesse a resposta, não teria perguntado. Dã.
O ser humano é digno de aplausos mesmo. Dos mais enfáticos e escandalosos e, claro, sarcásticos.
sexta-feira, 10 de junho de 2011
Sobre o amor
Desde que fui apresentada ao filósofo romeno Emil Cioran, ele virou uma espécie de guia para mim. Os livros dele tomam ares de autoajuda. E sei que isso seria visto por ele como uma piada de mau gosto, um paradoxo sem precedentes, caso eu realmente siga os ensinamentos dele. Mas não tem jeito.
Eu comecei a ler avidamente "Silogismos da Amargura" e “Breviário da Decomposição" não tem nem um mês. E depois de um tempo resolvi lê-los com mais parcimônia, em doses homeopáticas, eu diria. Porque não quero que acabe logo (sim, sou dessas).
E posso considerar um marco na minha vida. Ter entrado em contato com ele justo nesse momento. É um daqueles encontros perfeitos, na hora certa, no lugar certo.
E bem, faltando dois dias para o Dia dos Namorados, é aquele clima no ar, as pessoas só falam disso, e blá blá. E não sou hipócrita, faço piada e tudo o mais, mas a verdade é que eu gosto de namorar. Passei muito tempo namorando, e sei que é bom, apesar de todos os reveses. E por que raios então não estou namorando? Não estou exatamente porque não quero. Contraditório? Talvez. Sou complicada quanto a isso? Sim. Não vou me alongar nisso pois não vem ao caso. Não foi isso que vim falar aqui, reclamar que a minha complexidade me impede de ter relações "normais" nem chorar minhas lamúrias pessoais.
Eu sempre tive a minha visão do que é o amor, que julgo meio complicada, e se eu começasse a falar dela aqui não haveria espaço (aliás, qualquer coisa que eu me proponho a falar sobre é essa bíblia... Sim, adoro me explicar. Adoro explicar tudo. Adoro tentar. Mesmo no fundo sabendo ser completamente improfícuo. Digamos que considero um bom exercício, o exercício da lógica, da escrita, em suma: o exercício intelectual em geral. Pensar é a causa cujas consequências são as mais inconsequentes, se isso é possível. Mas creio que gera um bom passatempo, até a chegada da fatídica hora).
Vou então apresentar um dos trechos com os quais mais me identifiquei em "Breviário da Decomposição".
Acho engraçado essa coisa de identificação com um texto, porque a ideia nasceu com você, esteve o tempo todo aí dentro, aí foi preciso alguém que, com a fórmula exata, a expusesse e que em algum momento você entrasse em contato com ela, pra finalmente dizer a você mesmo: é exatamente o que penso sobre isso! E é isso que vem acontecendo entre mim e as ideias de Cioran. Não sou xiita, admito que tem coisas dele que não me inflamam. Mas a grande maioria de seus escritos moram aqui ó (aponta pro coração e pro cérebro. Que perfeito.)
Neste trecho em que ele começa a falar das mentiras que os homens criam, e que viram mitos creditados pelo homem (por exemplo, religião), acaba falando do amor. Pra mim, o amor não se resume a isso, mas isso que ele escreve ajuda a compor com louvor o que penso (sempre pensei, mas não dei forma tão eficaz) sobre o sentimento em questão.
Sem mais delongas, segue o trecho do capítulo "A mentira imanente".
"...Nem todos os homens podem ter êxito: a fecundidade de suas mentiras varia... Tal engano triunfa: disso resulta uma religião, uma doutrina ou um mito – e uma multidão de fiéis; outro fracassa: não passa então de uma divagação, de uma teoria ou de uma ficção. Só as coisas inertes não acrescentam nada ao que são: uma pedra não mente: não interessa a ninguém – enquanto que a vida inventa sem cessar: a vida é o romance da matéria.
Pó apaixonado por fantasmas tal é o homem: sua imagem absoluta, idealmente semelhante, encarnar-se-ia em um Dom Quixote visto por Ésquilo...
(Se na hierarquia das mentiras ávida ocupa o primeiro lugar, o amor lhe sucede imediatamente, mentira na mentira. Expressão de nossa posição híbrida, cerca-se de um aparato de beatitudes e de tormentos graças ao qual encontramos em outro um substituto de nós mesmos. Por qual embuste dois olhos nos apartam de nossa solidão? Há fracasso mais humilhante para o espírito? O amor adormece o conhecimento; o conhecimento desperto mata o amor. A irrealidade não pode triunfar indefinidamente, nem mesmo disfarçada com a aparência da mais estimulante mentira. E, de resto, quem teria uma ilusão tão firme para encontrar no outro o que buscou em vão em si mesmo? Um calor nas entranhas nos trará o que o universo inteiro não soube oferecer-nos? E, no entanto, esse é o fundamento desta anomalia corrente e sobrenatural: resolver a dois – ou antes, suspender – todos os enigmas; graças a uma impostura. Esquecer esta ficção em que está mergulhada a vida: com uma dupla carícia preencher a vacuidade geral: e – paródia do êxtase – afogar-se, finalmente, no suor de um cúmplice qualquer...)."
Eu comecei a ler avidamente "Silogismos da Amargura" e “Breviário da Decomposição" não tem nem um mês. E depois de um tempo resolvi lê-los com mais parcimônia, em doses homeopáticas, eu diria. Porque não quero que acabe logo (sim, sou dessas).
E posso considerar um marco na minha vida. Ter entrado em contato com ele justo nesse momento. É um daqueles encontros perfeitos, na hora certa, no lugar certo.
E bem, faltando dois dias para o Dia dos Namorados, é aquele clima no ar, as pessoas só falam disso, e blá blá. E não sou hipócrita, faço piada e tudo o mais, mas a verdade é que eu gosto de namorar. Passei muito tempo namorando, e sei que é bom, apesar de todos os reveses. E por que raios então não estou namorando? Não estou exatamente porque não quero. Contraditório? Talvez. Sou complicada quanto a isso? Sim. Não vou me alongar nisso pois não vem ao caso. Não foi isso que vim falar aqui, reclamar que a minha complexidade me impede de ter relações "normais" nem chorar minhas lamúrias pessoais.
Eu sempre tive a minha visão do que é o amor, que julgo meio complicada, e se eu começasse a falar dela aqui não haveria espaço (aliás, qualquer coisa que eu me proponho a falar sobre é essa bíblia... Sim, adoro me explicar. Adoro explicar tudo. Adoro tentar. Mesmo no fundo sabendo ser completamente improfícuo. Digamos que considero um bom exercício, o exercício da lógica, da escrita, em suma: o exercício intelectual em geral. Pensar é a causa cujas consequências são as mais inconsequentes, se isso é possível. Mas creio que gera um bom passatempo, até a chegada da fatídica hora).
Vou então apresentar um dos trechos com os quais mais me identifiquei em "Breviário da Decomposição".
Acho engraçado essa coisa de identificação com um texto, porque a ideia nasceu com você, esteve o tempo todo aí dentro, aí foi preciso alguém que, com a fórmula exata, a expusesse e que em algum momento você entrasse em contato com ela, pra finalmente dizer a você mesmo: é exatamente o que penso sobre isso! E é isso que vem acontecendo entre mim e as ideias de Cioran. Não sou xiita, admito que tem coisas dele que não me inflamam. Mas a grande maioria de seus escritos moram aqui ó (aponta pro coração e pro cérebro. Que perfeito.)
Neste trecho em que ele começa a falar das mentiras que os homens criam, e que viram mitos creditados pelo homem (por exemplo, religião), acaba falando do amor. Pra mim, o amor não se resume a isso, mas isso que ele escreve ajuda a compor com louvor o que penso (sempre pensei, mas não dei forma tão eficaz) sobre o sentimento em questão.
Sem mais delongas, segue o trecho do capítulo "A mentira imanente".
"...Nem todos os homens podem ter êxito: a fecundidade de suas mentiras varia... Tal engano triunfa: disso resulta uma religião, uma doutrina ou um mito – e uma multidão de fiéis; outro fracassa: não passa então de uma divagação, de uma teoria ou de uma ficção. Só as coisas inertes não acrescentam nada ao que são: uma pedra não mente: não interessa a ninguém – enquanto que a vida inventa sem cessar: a vida é o romance da matéria.
Pó apaixonado por fantasmas tal é o homem: sua imagem absoluta, idealmente semelhante, encarnar-se-ia em um Dom Quixote visto por Ésquilo...
(Se na hierarquia das mentiras ávida ocupa o primeiro lugar, o amor lhe sucede imediatamente, mentira na mentira. Expressão de nossa posição híbrida, cerca-se de um aparato de beatitudes e de tormentos graças ao qual encontramos em outro um substituto de nós mesmos. Por qual embuste dois olhos nos apartam de nossa solidão? Há fracasso mais humilhante para o espírito? O amor adormece o conhecimento; o conhecimento desperto mata o amor. A irrealidade não pode triunfar indefinidamente, nem mesmo disfarçada com a aparência da mais estimulante mentira. E, de resto, quem teria uma ilusão tão firme para encontrar no outro o que buscou em vão em si mesmo? Um calor nas entranhas nos trará o que o universo inteiro não soube oferecer-nos? E, no entanto, esse é o fundamento desta anomalia corrente e sobrenatural: resolver a dois – ou antes, suspender – todos os enigmas; graças a uma impostura. Esquecer esta ficção em que está mergulhada a vida: com uma dupla carícia preencher a vacuidade geral: e – paródia do êxtase – afogar-se, finalmente, no suor de um cúmplice qualquer...)."
terça-feira, 7 de junho de 2011
Pavlov e Schrödinger, seus lindos
Vindo eu para o trabalho hoje, com aquele sono gostoso e torturante (por não poder de fato deitar e morrer dormir), pensando mais uma vez em relacionar duas teorias científicas (uma behaviorista e uma do campo da física). E digo ‘pensando mais uma vez’ porque tenho o costume de aproveitar minhas viagens infinitas de ida e volta ao trabalho para ouvir música, ler livros e pensar toda a sorte de absurdos e nonsenses.
(Conclui-se então que teorias científicas são absurdos e nonsenses... Mas isso é outra história.)
Então exatamente hoje, achei por bem voltar a essa reflexão. Mas primeiro direi como me ocorreu a ideia, uns dias atrás: estava eu pensando nos animais, nas ciências, em física, em sociologia, em psicologia e disse isso tudo na verdade porque não consigo definir exatamente o que estava eu pensando, mas acho que um pouco de tudo, ou na verdade, tudo junto e misturado, não sendo possível desamalgamar e por conseguinte definir coisa alguma.
E lembrei das duas teorias científicas cujos criadores utilizaram animais para justificar-se:
os cães de Pavlov e o gato de Schrödinger. Como relacioná-las? Na verdade, por que eu pensei em relacioná-las? Não sei. Mas boa ariana com ascendente em touro que sou, não desisto fácil das coisas, quando efetivamente estimulada.
E hoje me veio a epifania. Existem fatos em nossas vidas, o tempo todo, relacionando as duas teorias, e assim, corroborando-as! E o que é melhor, é tudo incrivelmente nonsense!
Partindo então do princípio que meus ausentes leitores saibam do que se trata as ditas teorias, desenrolarei então os exemplos muitos que pensei, explicando:
Um: quando estamos ouvindo música. E ouvimos certos sons na música que cremos ser do nosso celular tocando, ou de alheios, ou buzinas, ou a campainha. Por uma fração de segundos, a realidade para nós é de que realmente se trata de outro som, e essa sensação nos causa extrema estranheza (particularmente eu gosto). Então, por uma fração de segundos, mesmo que a gente não se dê conta (nós realmente não nos damos) o som é um gato de Schrödinger. Pode ser tanto uma coisa quanto outra. E realmente pode! Porque quando voltamos do estado dito naqueles segundos (ou fração de), em que acreditamos ser o som externo, na verdade ficamos na dúvida. E tiramos o fone, ou abaixamos o som para ouvir. E aí sim, comprovamos externamente o que é o som que ouvimos (então tem uma certa adaptação da teoria aí: como pode ser inúmeras coisas, não há simplesmente 50% de chance, as porcentagens diminuem. E aí começamos a mexer com probabilidade, melhor deixar quieto). Agora: por que fazemos isso? Por que acreditamos ser outro som que ouvimos, além da música? Porque vivemos num mundo em que nos condicionamos a isso. Pessoas existem, logo carros, e buzinas, e celulares. E campainhas. Então achamos, claro, que esse som estranho vem de algum ponto do nosso mundo. Porque vivemos nele e já assimilamos os sons possíveis e tal.
Outro exemplo: quando vamos pegar uma garrafa de água: nossa experiência de mundo nos ensinou que garrafas ou qualquer recipiente, quando cheio, pesa. E, por acreditarmos que certa garrafa ou recipiente se encontra cheio, o pegamos com a dose certa de força. E aí entra o gato: ela pode (ou não) estar cheia! Ao mesmo tempo ela está cheia e vazia (e não nos damos conta disso... É, isso talvez seja um pequeno lapso dessa minha tese: na experiência do gato, obviamente Schrödinger sabia das chances, ele próprio as fez... Mas o fato de não sabermos disso, ou seja, de ser inconsciente, como quero crer, talvez não omita a beleza da coisa). Desprendemos mais força que o necessário para levantar a garrafa vazia... Aí acontece aquela sensação que dura (fração de) segundos, em que nossa realidade foi violentamente frustrada.
Outro: quando estamos num quarto que nos é familiar, no escuro. Sabemos onde as coisas estão posicionadas... Por aí vai.
Outro: quando vemos alguém na rua e JURAMOS que é alguém que conhecemos. Aí quando vamos ver, não é... Ou é...
Outro: quando vamos comer um bolo, por exemplo, visualmente IDÊNTICO ao de cenoura com cobertura de chocolate (e mais, adido o fato de que alguém nos disse ser de cenoura com cobertura de chocolate). Quando mordemos, e na verdade é salgado, de abóbora e com cobertura de feijão (tá ninguém, faria isso... Ou sim, eu gosto de crer que sim)...
E por aí vai, tudo ao nosso redor está arranjado, iludindo a torto e a direito nossos cinco sentidos.
(Acho essas experiências que descrevi acima dopantes da nossa realidade por demais... E assim, distorcedoras... Como drogas induzidas inconscientemente.)
E tudo isso rende uma boa metáfora: somos todos cães rodeados por gatos...
Quem disse que ciência e poesia não podem se inspirar?
(Conclui-se então que teorias científicas são absurdos e nonsenses... Mas isso é outra história.)
Então exatamente hoje, achei por bem voltar a essa reflexão. Mas primeiro direi como me ocorreu a ideia, uns dias atrás: estava eu pensando nos animais, nas ciências, em física, em sociologia, em psicologia e disse isso tudo na verdade porque não consigo definir exatamente o que estava eu pensando, mas acho que um pouco de tudo, ou na verdade, tudo junto e misturado, não sendo possível desamalgamar e por conseguinte definir coisa alguma.
E lembrei das duas teorias científicas cujos criadores utilizaram animais para justificar-se:
os cães de Pavlov e o gato de Schrödinger. Como relacioná-las? Na verdade, por que eu pensei em relacioná-las? Não sei. Mas boa ariana com ascendente em touro que sou, não desisto fácil das coisas, quando efetivamente estimulada.
E hoje me veio a epifania. Existem fatos em nossas vidas, o tempo todo, relacionando as duas teorias, e assim, corroborando-as! E o que é melhor, é tudo incrivelmente nonsense!
Partindo então do princípio que meus ausentes leitores saibam do que se trata as ditas teorias, desenrolarei então os exemplos muitos que pensei, explicando:
Um: quando estamos ouvindo música. E ouvimos certos sons na música que cremos ser do nosso celular tocando, ou de alheios, ou buzinas, ou a campainha. Por uma fração de segundos, a realidade para nós é de que realmente se trata de outro som, e essa sensação nos causa extrema estranheza (particularmente eu gosto). Então, por uma fração de segundos, mesmo que a gente não se dê conta (nós realmente não nos damos) o som é um gato de Schrödinger. Pode ser tanto uma coisa quanto outra. E realmente pode! Porque quando voltamos do estado dito naqueles segundos (ou fração de), em que acreditamos ser o som externo, na verdade ficamos na dúvida. E tiramos o fone, ou abaixamos o som para ouvir. E aí sim, comprovamos externamente o que é o som que ouvimos (então tem uma certa adaptação da teoria aí: como pode ser inúmeras coisas, não há simplesmente 50% de chance, as porcentagens diminuem. E aí começamos a mexer com probabilidade, melhor deixar quieto). Agora: por que fazemos isso? Por que acreditamos ser outro som que ouvimos, além da música? Porque vivemos num mundo em que nos condicionamos a isso. Pessoas existem, logo carros, e buzinas, e celulares. E campainhas. Então achamos, claro, que esse som estranho vem de algum ponto do nosso mundo. Porque vivemos nele e já assimilamos os sons possíveis e tal.
Outro exemplo: quando vamos pegar uma garrafa de água: nossa experiência de mundo nos ensinou que garrafas ou qualquer recipiente, quando cheio, pesa. E, por acreditarmos que certa garrafa ou recipiente se encontra cheio, o pegamos com a dose certa de força. E aí entra o gato: ela pode (ou não) estar cheia! Ao mesmo tempo ela está cheia e vazia (e não nos damos conta disso... É, isso talvez seja um pequeno lapso dessa minha tese: na experiência do gato, obviamente Schrödinger sabia das chances, ele próprio as fez... Mas o fato de não sabermos disso, ou seja, de ser inconsciente, como quero crer, talvez não omita a beleza da coisa). Desprendemos mais força que o necessário para levantar a garrafa vazia... Aí acontece aquela sensação que dura (fração de) segundos, em que nossa realidade foi violentamente frustrada.
Outro: quando estamos num quarto que nos é familiar, no escuro. Sabemos onde as coisas estão posicionadas... Por aí vai.
Outro: quando vemos alguém na rua e JURAMOS que é alguém que conhecemos. Aí quando vamos ver, não é... Ou é...
Outro: quando vamos comer um bolo, por exemplo, visualmente IDÊNTICO ao de cenoura com cobertura de chocolate (e mais, adido o fato de que alguém nos disse ser de cenoura com cobertura de chocolate). Quando mordemos, e na verdade é salgado, de abóbora e com cobertura de feijão (tá ninguém, faria isso... Ou sim, eu gosto de crer que sim)...
E por aí vai, tudo ao nosso redor está arranjado, iludindo a torto e a direito nossos cinco sentidos.
(Acho essas experiências que descrevi acima dopantes da nossa realidade por demais... E assim, distorcedoras... Como drogas induzidas inconscientemente.)
E tudo isso rende uma boa metáfora: somos todos cães rodeados por gatos...
Quem disse que ciência e poesia não podem se inspirar?
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