"[...]Na noite de seu aniversário cantei para Delgadina a canção completa e beijei-a por todo o corpo até ficar sem respiração: a espnha dorsal, vértebra por vértebra, até as nádegas lânguidas, o lado da pinta, do seu coração inesgotável. À medida que a beijava aumentava o calor do seu corpo e ela exalava uma fragância de montanha. Ela me respondeu com vibrações novas em cada polegada de sua pele, e em cada uma encontrei um calor diferente, um sabor próprio, um gemido novo, e ela inteira ressoou com um arquejo, e seus mamilos se abriram em flor sem ser tocados[...]" Memoria de mi Putas Tristes. Gabriel García Márquez.
Li esse livro tem um tempo, mas esse trecho não me sai da memória. E hoje está demais. Já li muita literatura que pode ser considerada erótica, não necessariamente com esse objetivo, mas com passagens bem lascivas. Lolita. Casa dos Budas Ditosos. Satíricon. Lisístrata, de Aristófanes. Bukowski. Contos de Rubens Fonseca. Não me perdoo, Sade ainda não li. Sem contar alguns livretos na minha adolescência, literatura medíocre, aqueles com nome de mulheres, que vendem nas bancas de jornal. Mas não entendo, esse livro, mais especificamente esse trecho, me tocou de um jeito, que não sei explicar. Gostaria de ter sido eu a escrever. Mas García Márquez (assim como muitos outros escritores leitores de alma) de repente me entende mais do que eu mesma...
Enfim, hoje estou melancólica. Não gosto quando fico assim. Começo a pensar muitas coisas. Pensar me deixa com certa tristeza. Então isso se torna um ciclo maldito. Engraçado como justo assim, fui lembrar-me desse trecho. Pensando em coisas luxuriosas, que nada tem a ver com melancolia. Creio que tem algo nisso que me apetece... risos. Isso aqui tá muito conversa pra psicólogo dormir... Muitas profundidades da minha alma, dignas de uma boa sessão de psicoterapia. risos.
Gostaria de escrever mais sobre teoria da literatura, algo mais intelectualmente estimulante, mas estou meio tórpida agora. Creio que o sono.
segunda-feira, 27 de setembro de 2010
sexta-feira, 24 de setembro de 2010
Os étimos da vida
Não consigo fugir. Aqui vou eu escrever novamente sobre a língua portuguesa. Então, os exatos demais abstenham-se do meu texto. Ou não, porque esse assunto é supimpa. Falarei, brevemente (porque esse assunto me empolga, então vou tentar ser breve), sobre a etimologia, ramo dos estudos da linguagem que mais me fascina. Antes mesmo das figuras de linguagem. Aliás, esse interesse sempre existiu. Um dos motivos (talvez o principal) que me levou a fazer Letras - Port/ Latim.
É fato: o latim é o âmago de inúmeras línguas. Ele seria um dos sub-ramos do indo-europeu, essa considerada a proto-língua, a língua-mãe da maioria das línguas existentes (a minoria faz parte de outros ramos, como o afro-asiático e o sino-tibetano). O indo-europeu seria uma suposição de especialistas, por meio de estudos comparativos entre as línguas. Há apenas teorias, nada de provas sobre a outrora existência dela. E o latim é a língua que mais influiu na formação das línguas europeias, por conseguinte nas também faladas nas Américas e na Oceania (sem falar de alguns países na África também). Não vou entrar em detalhes históricos, sobre a dominação do Império Romano e tal. Vou falar exclusivamente sobre a formação dos vocábulos. Etimologia vem do grego etumon, "origem" e logos "palavra, estudo". Então, é o estudo da raiz, da origem das palavras.
Gostaria até de ter feito ou ainda fazer, quem sabe, uma especialização nisso, mas penso que vida acadêmica não é pra mim.Vejo então que a única maneira de ganhar a vida com raiz seria fazendo agronomia e estudar plantações de tubérculos (tá, essa foi horrível). Enfim...
No momento, estudar etimologia configura-se apenas como um hobby, sem pretensões mais audazes.
Comecei, tem um tempinho, a ler "A Insustentável Leveza do Ser", de Kundera (então, minha alma aquietou-se um pouco para atividades mais intelectuais. Eu disse um pouco). Kundera utiliza-se de um casal, Tomas e Tereza (que às vezes torna-se um trio, com Sabina), para falar das relações humanas sejam amorosas ou de amizade, e faz reflexões filosóficas, sociais e até linguísticas. E é nesse ponto que me atenho, no capítulo (o livro é divido em partes que por sua vez são divididas em capítulos minúsculos) em que ele fala sobre a origem da palavra "compaixão" em várias línguas. Nas línguas derivadas do latim, a palavra é formada pelo prefixo com, que significa "junto de, com" e passio, que significa "sofrimento". Assim, significa sentir simpatia por quem sofre, sofrer junto, o que teria uma carga pejorativa. Mas nas línguas de origem eslava e germânica, há o prefixo equivalente, mais a palavra que significa "sentimento", como em tcheco sou-cit, polonês wspol-czucie, alemão mitge-fühl, sueco med-känsla. Ou seja, nessas línguas, a palavra é empregada mais ou menos no mesmo sentido que "compaixão", mas reveste-se de uma aura muito mais elevada que a outra. Significa então, poder "sentir" todo e qualquer sentimento, não somente o sofrimento.
Com isso, podemos ver como a linguagem reflete a maneira de pensa de um povo. É como um arquivo, onde ficam gravadas várias informações relevantes sobre como a sociedade em questão via, percebia o mundo.
É redundante falar em diacronicidade em qualquer texto sobre etimologia. Mas o estudo diacrônico (estudo das formas contemporâneas comparando-as com as formas arcaicas) é interessantíssimo não apenas para ver pura e simplesmente a origem mecânica da coisa, mas também para ir a fundo e tentar entender o porquê da palavra ter tomado tal forma. A história, a filosofia e porque não a sociologia devem muito à etimologia.
Outro exemplo: a palavra "comer" em latim é edere. Por se usar muito o tal prefixo com (por vezes confundido com a preposição cum, talvez um venha do outro, suponho) junto ao verbo edere, acabou-se cristalizando, trazendo até nós a forma "comer". Mas e aí? Por que utilizavam com + edere? Porque, para os romanos, as refeições nunca eram feitas solitariamente. Era prática comum sempre se sentar a mesa para comer com mais pessoas. Com + edere = comedere. E passando por vários processos de perda de fonemas e tal, chegou ao nosso "comer" (estranhamente, bibere não era usado com o prefixo com, na minha opinião muito mais lógico, porque comer eu posso fazer sozinha, agora beber... Muito melhor acompanhado. Mas eles não viam a coisa desse jeito).
Eu gostaria de ficar aqui falando e dando exemplos, mas vai ficar muito chato pra quem tá lendo. Acho que é legal só pra mim essa parada (e pra quem compartilha do mesmo interesse...). Mas recomendo o estudo do latim a todos, porque com ele, muitas das vezes, nem precisamos de dicionário pra saber o significado de alguma palavra. E nem digo só nas neo-latinas não. Mais de 80% (não sei a porcentagem correta, mas é algo altíssimo mesmo) das palavras do vocabulário da língua inglesa e alemã vêm do latim. Exemplo que adoro é o da palavra estrela: estrella em espanhol, stella em italiano, αστέρι em grego (lê-se astéri. Coloquei o grego só porque sou fanfarrona.), star em inglês e stern em alemão. Preciso dizer a semelhança? Até em grego vê-se a origem. Outro exemplo: deletar. Vem do verbo latino delere, "apagar". Foi pro inglês to delet, e daí veio pro português. Ou seja, ela saiu do latim, pegou carona com o inglês e foi pra uma neo-latina, cujo curso natural seria vir do latim direto. Mas percebe-se uma imanência meio velada no português, como na palavra "indelével", "aquilo que não se pode apagar".
Sobre o que eu falei de não precisar de dicionário algumas vezes, aconteceu comigo outro dia, e fiquei tão feliz! Isso porque foi com uma palavra aparentemente difícil. "Procrastinação". Nunca me interessei em saber o significado, já tinha visto por aí e tal. Mas aí rolou de aparecer num texto, e na mesma hora tive um "insight": pro, "para frente", cras, "amanhã". Pronto! Ato de deixar algo para amanhã, adiar. Fiquei muito contente, sério mesmo. Pode parecer besteira para alguns, mas acho super satisfatório. Satisfatório, aliás, se eu não soubesse o que significa, é facilmente desvendável: satis, "muito", facere, "fazer". Grosso modo, "algo que faz muito", ou seja, que enche... satisfaz! Outra palavra: essa nem foi eu que descobri, li em algum lugar e fiquei chateada de não ter pensando nisso antes: "Consideração". Com, "junto de, com", sideralis, "relativo aos astros". Num momento arcaico significou "pensar, confabular junto aos astros, aos deuses". Hoje também é pensar, confabular, mas infelizmente não olhamos mais tanto pro céu como deveríamos...
É fato: o latim é o âmago de inúmeras línguas. Ele seria um dos sub-ramos do indo-europeu, essa considerada a proto-língua, a língua-mãe da maioria das línguas existentes (a minoria faz parte de outros ramos, como o afro-asiático e o sino-tibetano). O indo-europeu seria uma suposição de especialistas, por meio de estudos comparativos entre as línguas. Há apenas teorias, nada de provas sobre a outrora existência dela. E o latim é a língua que mais influiu na formação das línguas europeias, por conseguinte nas também faladas nas Américas e na Oceania (sem falar de alguns países na África também). Não vou entrar em detalhes históricos, sobre a dominação do Império Romano e tal. Vou falar exclusivamente sobre a formação dos vocábulos. Etimologia vem do grego etumon, "origem" e logos "palavra, estudo". Então, é o estudo da raiz, da origem das palavras.
Gostaria até de ter feito ou ainda fazer, quem sabe, uma especialização nisso, mas penso que vida acadêmica não é pra mim.Vejo então que a única maneira de ganhar a vida com raiz seria fazendo agronomia e estudar plantações de tubérculos (tá, essa foi horrível). Enfim...
No momento, estudar etimologia configura-se apenas como um hobby, sem pretensões mais audazes.
Comecei, tem um tempinho, a ler "A Insustentável Leveza do Ser", de Kundera (então, minha alma aquietou-se um pouco para atividades mais intelectuais. Eu disse um pouco). Kundera utiliza-se de um casal, Tomas e Tereza (que às vezes torna-se um trio, com Sabina), para falar das relações humanas sejam amorosas ou de amizade, e faz reflexões filosóficas, sociais e até linguísticas. E é nesse ponto que me atenho, no capítulo (o livro é divido em partes que por sua vez são divididas em capítulos minúsculos) em que ele fala sobre a origem da palavra "compaixão" em várias línguas. Nas línguas derivadas do latim, a palavra é formada pelo prefixo com, que significa "junto de, com" e passio, que significa "sofrimento". Assim, significa sentir simpatia por quem sofre, sofrer junto, o que teria uma carga pejorativa. Mas nas línguas de origem eslava e germânica, há o prefixo equivalente, mais a palavra que significa "sentimento", como em tcheco sou-cit, polonês wspol-czucie, alemão mitge-fühl, sueco med-känsla. Ou seja, nessas línguas, a palavra é empregada mais ou menos no mesmo sentido que "compaixão", mas reveste-se de uma aura muito mais elevada que a outra. Significa então, poder "sentir" todo e qualquer sentimento, não somente o sofrimento.
Com isso, podemos ver como a linguagem reflete a maneira de pensa de um povo. É como um arquivo, onde ficam gravadas várias informações relevantes sobre como a sociedade em questão via, percebia o mundo.
É redundante falar em diacronicidade em qualquer texto sobre etimologia. Mas o estudo diacrônico (estudo das formas contemporâneas comparando-as com as formas arcaicas) é interessantíssimo não apenas para ver pura e simplesmente a origem mecânica da coisa, mas também para ir a fundo e tentar entender o porquê da palavra ter tomado tal forma. A história, a filosofia e porque não a sociologia devem muito à etimologia.
Outro exemplo: a palavra "comer" em latim é edere. Por se usar muito o tal prefixo com (por vezes confundido com a preposição cum, talvez um venha do outro, suponho) junto ao verbo edere, acabou-se cristalizando, trazendo até nós a forma "comer". Mas e aí? Por que utilizavam com + edere? Porque, para os romanos, as refeições nunca eram feitas solitariamente. Era prática comum sempre se sentar a mesa para comer com mais pessoas. Com + edere = comedere. E passando por vários processos de perda de fonemas e tal, chegou ao nosso "comer" (estranhamente, bibere não era usado com o prefixo com, na minha opinião muito mais lógico, porque comer eu posso fazer sozinha, agora beber... Muito melhor acompanhado. Mas eles não viam a coisa desse jeito).
Eu gostaria de ficar aqui falando e dando exemplos, mas vai ficar muito chato pra quem tá lendo. Acho que é legal só pra mim essa parada (e pra quem compartilha do mesmo interesse...). Mas recomendo o estudo do latim a todos, porque com ele, muitas das vezes, nem precisamos de dicionário pra saber o significado de alguma palavra. E nem digo só nas neo-latinas não. Mais de 80% (não sei a porcentagem correta, mas é algo altíssimo mesmo) das palavras do vocabulário da língua inglesa e alemã vêm do latim. Exemplo que adoro é o da palavra estrela: estrella em espanhol, stella em italiano, αστέρι em grego (lê-se astéri. Coloquei o grego só porque sou fanfarrona.), star em inglês e stern em alemão. Preciso dizer a semelhança? Até em grego vê-se a origem. Outro exemplo: deletar. Vem do verbo latino delere, "apagar". Foi pro inglês to delet, e daí veio pro português. Ou seja, ela saiu do latim, pegou carona com o inglês e foi pra uma neo-latina, cujo curso natural seria vir do latim direto. Mas percebe-se uma imanência meio velada no português, como na palavra "indelével", "aquilo que não se pode apagar".
Sobre o que eu falei de não precisar de dicionário algumas vezes, aconteceu comigo outro dia, e fiquei tão feliz! Isso porque foi com uma palavra aparentemente difícil. "Procrastinação". Nunca me interessei em saber o significado, já tinha visto por aí e tal. Mas aí rolou de aparecer num texto, e na mesma hora tive um "insight": pro, "para frente", cras, "amanhã". Pronto! Ato de deixar algo para amanhã, adiar. Fiquei muito contente, sério mesmo. Pode parecer besteira para alguns, mas acho super satisfatório. Satisfatório, aliás, se eu não soubesse o que significa, é facilmente desvendável: satis, "muito", facere, "fazer". Grosso modo, "algo que faz muito", ou seja, que enche... satisfaz! Outra palavra: essa nem foi eu que descobri, li em algum lugar e fiquei chateada de não ter pensando nisso antes: "Consideração". Com, "junto de, com", sideralis, "relativo aos astros". Num momento arcaico significou "pensar, confabular junto aos astros, aos deuses". Hoje também é pensar, confabular, mas infelizmente não olhamos mais tanto pro céu como deveríamos...
sexta-feira, 17 de setembro de 2010
Nostalgias
Farei um mergulho a minha infância, uma volta à passagem dos anos 80 aos 90, que, creio eu, a melhor época de se ter uma infância que uma criança pode ter. Eu e meu irmão fomos criados pela minha mãe (meu pai faleceu faltando um mês pro meu aniversário de 4 anos, meu irmão tinha 3 meses), pela minha avó e pelos meus numerosos tios. Devo gratidão a cada um deles. Acho que mesmo vacilante, mesmo insegura, mesmo um pouco ausente, minha mãe foi espetacular. E o mais legal dessa época é que mesmo não tendo a presença no cangote constante dos pais, as crianças viviam e se "criavam", por assim dizer, sozinhas. A violência era quase nula. A tv (algo de extrema importância) era inócua.
Quando não estávamos assistindo desenhos, estávamos jogando vídeo-game (primeiro Atari, depois Master System, depois o Super Nintendo, o divisor de águas, com o bigodudo italiano que cismava de salvar aquela princesa estereótipo de loura, sempre se deixando raptar: Mário. E o derradeiro Nintendo 64), ou brincando com brinquedos supimpas. E mesmo assim, nosso dia parecia ter 30 horas, tínhamos tempo de brincar com as crianças da vila (diga-se de passagem, bem parecida com a do Chaves). Ela ficava no Engenho Novo, bairro perto do Méier. Vivemos lá até os meus 11 anos, depois nos mudamos para um apartamento em Vila Isabel, até os meus 13. Depois fomos morar em Saquarema, onde minha infância começou a minar (não digo isso num mal sentido, é o fato).
Bom, o negócio é que pretendo agora listar alguns fatos e coisas de que me lembro, e creio agora já que não lembrarei de tudo. Mas as memórias continuam, aqui dentro. Para sempre felizes e sapecas como o acordar numa manhã de sol (na temperatura certa naquela época), tomar leite achocolatado (ou com café, vê-se agora onde começou meu vício) feito pela minha avó na mamadeira (tomei mamadeira até os 7 anos. Não me envergonho disso), assistir os desenhos do Programa da Xuxa ainda de pijama no sofá e depois brincar. E tudo isso, com a companhia inestimável de meu irmão, e já naquela época trocávamos desavenças, mas éramos amiguinhos inseparáveis. Brincávamos de playmobil, ele com o playmobil medieval, e eu com o playmobil acidente (sério, vinha um bonequinho grande e um pequeno, com gesso pra ambos, faixas e cadeira de rodas. ISSO era brinquedo). Ótimo era quando misturávamos com minhas barbies (sim, tinha muitas, e era ótima cabeleireira, pintava os cabelos delas de giz de cera.Também era ótima costureira, fazia várias roupinhas de retalhos), com os carrinhos dele, incluindo do Winspector, meu castelo da She-ra e muitas, mas muitas pecinhas de Lego. Éramos apaixonados por Lego. Tínhamos caixas gigantescas, e aqueles temáticos. Bom também era no São Cosme e Damião, saíamos pra pegar doces, e depois quando chegávamos em casa, colocávamos o cocô-de-rato e outros doces em tigelinhas e fingíamos ser cachorros, comendo nelas (vai entender cabeça de criança). Eu e meu irmão aprontávamos muito, nem vai caber tudo aqui. A gente mandava trotes, pegávamos os telefones comerciais que tinham no final da Revista Veja Rio e ligávamos, mas só meu irmão tinha coragem de falar palavrão. Eu ligava e no final ele mandava o atendente tomar no cu, ou se foder, algo do tipo, e desligava. Também derretíamos brinquedinhos de plástico, aqueles baratinhos com a base colada nos pés, na lâmpada do abajur, pra brincar de lanchonete... Sem falar do clássico tocar a campainha dos vizinhos e sair correndo né...
Brincávamos na chuva também. Altos banhos. Lembro de uma vez, sem minha mãe saber, que fui pro meio da chuva de guarda-chuva, no pátio, e fiquei ali sentanda, comendo bis. E quando quebrei o dente? Foi com nove anos. Peguei a bicicleta sem minha mãe saber (isso era prática comum entre mim e meu irmão), pra andar no pátio, e quando fui guardá-la, meu dente bateu no guidão e quebrou, chorei pacas e ainda levei esporro da minha mãe... Lembro também dos Natais e Anos Novos, era uma preparação! Todo mundo se mobilizava com os preparativos. Íamos comprar roupas e presentes. Almoçávamos cachorro-quente pra não sujar muita louça... Também adorava quando minha mãe levava a gente no trabalho dela, em dias especiais, como Dia das Crianças, e éramos tratados muiiiito bem por todos os colegas dela. Arrumavam um computador, e a gente ficava brincando no paintbrush.
E os desenhos? Caverna do Dragão, As aventuras de Mickey e Donald, Smurfs, She-ra, He-man. Também alugávamos fitas dos desenhos do Snoopy e da Turma da Mônica. Revistinha da Turma da Mônica então?? Toda semana, de lei. Aí vieram os animes, Cavaleiro do Zodíaco, depois Sailor Moon, e também aqueles seriados japoneses, Patrine (adorava!), Changeman, Winspector... Não assistíamos programas da adultos, mas não porque nos proibiam, mas porque não tínhamos interesse. E se acaso nós tívessemos, nossa mãe nos explicava docemente o porquê de não assistir (claro que muitas vezes fazíamos escondido, éramos capetas em forma de guri). Mas apesar disso, A inocência imperava, éramos crianças de verdade, em todas as acepções da palavra, na época em que devíamos ser.
Posso dizer hoje que, apesar das doideiras que faço na vida, minha infância foi e é a espinha dorsal do meu caráter, e que ainda faz parte, como um grilinho falante inconsciente, das minhas escolhas. A aura dos anos 90 criaram as crianças, pro bem. E a parte do meu ser que é feliz, é feliz por causa da minha infância. E será até eu ficar velhinha caquética, sentindo uma lástima imensurável pelas novas crianças que são criadas ao som de eguinhas pocotós da vida.
Quando não estávamos assistindo desenhos, estávamos jogando vídeo-game (primeiro Atari, depois Master System, depois o Super Nintendo, o divisor de águas, com o bigodudo italiano que cismava de salvar aquela princesa estereótipo de loura, sempre se deixando raptar: Mário. E o derradeiro Nintendo 64), ou brincando com brinquedos supimpas. E mesmo assim, nosso dia parecia ter 30 horas, tínhamos tempo de brincar com as crianças da vila (diga-se de passagem, bem parecida com a do Chaves). Ela ficava no Engenho Novo, bairro perto do Méier. Vivemos lá até os meus 11 anos, depois nos mudamos para um apartamento em Vila Isabel, até os meus 13. Depois fomos morar em Saquarema, onde minha infância começou a minar (não digo isso num mal sentido, é o fato).
Bom, o negócio é que pretendo agora listar alguns fatos e coisas de que me lembro, e creio agora já que não lembrarei de tudo. Mas as memórias continuam, aqui dentro. Para sempre felizes e sapecas como o acordar numa manhã de sol (na temperatura certa naquela época), tomar leite achocolatado (ou com café, vê-se agora onde começou meu vício) feito pela minha avó na mamadeira (tomei mamadeira até os 7 anos. Não me envergonho disso), assistir os desenhos do Programa da Xuxa ainda de pijama no sofá e depois brincar. E tudo isso, com a companhia inestimável de meu irmão, e já naquela época trocávamos desavenças, mas éramos amiguinhos inseparáveis. Brincávamos de playmobil, ele com o playmobil medieval, e eu com o playmobil acidente (sério, vinha um bonequinho grande e um pequeno, com gesso pra ambos, faixas e cadeira de rodas. ISSO era brinquedo). Ótimo era quando misturávamos com minhas barbies (sim, tinha muitas, e era ótima cabeleireira, pintava os cabelos delas de giz de cera.Também era ótima costureira, fazia várias roupinhas de retalhos), com os carrinhos dele, incluindo do Winspector, meu castelo da She-ra e muitas, mas muitas pecinhas de Lego. Éramos apaixonados por Lego. Tínhamos caixas gigantescas, e aqueles temáticos. Bom também era no São Cosme e Damião, saíamos pra pegar doces, e depois quando chegávamos em casa, colocávamos o cocô-de-rato e outros doces em tigelinhas e fingíamos ser cachorros, comendo nelas (vai entender cabeça de criança). Eu e meu irmão aprontávamos muito, nem vai caber tudo aqui. A gente mandava trotes, pegávamos os telefones comerciais que tinham no final da Revista Veja Rio e ligávamos, mas só meu irmão tinha coragem de falar palavrão. Eu ligava e no final ele mandava o atendente tomar no cu, ou se foder, algo do tipo, e desligava. Também derretíamos brinquedinhos de plástico, aqueles baratinhos com a base colada nos pés, na lâmpada do abajur, pra brincar de lanchonete... Sem falar do clássico tocar a campainha dos vizinhos e sair correndo né...
Brincávamos na chuva também. Altos banhos. Lembro de uma vez, sem minha mãe saber, que fui pro meio da chuva de guarda-chuva, no pátio, e fiquei ali sentanda, comendo bis. E quando quebrei o dente? Foi com nove anos. Peguei a bicicleta sem minha mãe saber (isso era prática comum entre mim e meu irmão), pra andar no pátio, e quando fui guardá-la, meu dente bateu no guidão e quebrou, chorei pacas e ainda levei esporro da minha mãe... Lembro também dos Natais e Anos Novos, era uma preparação! Todo mundo se mobilizava com os preparativos. Íamos comprar roupas e presentes. Almoçávamos cachorro-quente pra não sujar muita louça... Também adorava quando minha mãe levava a gente no trabalho dela, em dias especiais, como Dia das Crianças, e éramos tratados muiiiito bem por todos os colegas dela. Arrumavam um computador, e a gente ficava brincando no paintbrush.
E os desenhos? Caverna do Dragão, As aventuras de Mickey e Donald, Smurfs, She-ra, He-man. Também alugávamos fitas dos desenhos do Snoopy e da Turma da Mônica. Revistinha da Turma da Mônica então?? Toda semana, de lei. Aí vieram os animes, Cavaleiro do Zodíaco, depois Sailor Moon, e também aqueles seriados japoneses, Patrine (adorava!), Changeman, Winspector... Não assistíamos programas da adultos, mas não porque nos proibiam, mas porque não tínhamos interesse. E se acaso nós tívessemos, nossa mãe nos explicava docemente o porquê de não assistir (claro que muitas vezes fazíamos escondido, éramos capetas em forma de guri). Mas apesar disso, A inocência imperava, éramos crianças de verdade, em todas as acepções da palavra, na época em que devíamos ser.
Posso dizer hoje que, apesar das doideiras que faço na vida, minha infância foi e é a espinha dorsal do meu caráter, e que ainda faz parte, como um grilinho falante inconsciente, das minhas escolhas. A aura dos anos 90 criaram as crianças, pro bem. E a parte do meu ser que é feliz, é feliz por causa da minha infância. E será até eu ficar velhinha caquética, sentindo uma lástima imensurável pelas novas crianças que são criadas ao som de eguinhas pocotós da vida.
terça-feira, 7 de setembro de 2010
"Minha vida é tão confusa quanto a América Central, por isso não me acuse de ser irracional..."
Retornando do feriado de 7 de setembro, e agora ouvindo a srta. Janis Joplin, pensando nas nostalgias da vida... Janis tem esse poder sobre mim, mas acho também que o momento está propício para algumas conjecturas. Nesse feriado, vivi. Vivi, muito. Só o que fiz. Não pensei. Só vivi. Respirei. E vivi. Pensando estou agora. Três dias intensos. Hard Core. E não posso deixar de ligar tudo a minha "arianez", irrompida intensamente nesse ínterim de minha vida.Viver, intensamente, agir, depois pensar. Conquistar o que se quer, e ficar feliz com isso. Impulsos de energia, vitalidade. Saí, bebi, beijei. Curti, profundamente, a(s) noite(s), até quase de manhã. Dormia pouco. Acordava, e curtia também a família (altos papos com Carol, minha priminha projetinho de metaleira. Muitas afinidades, foda). O perfeito equilíbrio entre essas minhas vidas sociais. Amigos e família. Atenção devida a cada uma. Na verdade, quase... muitos amigos não visitados, mas para ficar satisfeita com isso precisaria de um mês de férias. Meu círculo de amizade está mais pra um icoságono. Cada um num canto. Pra quebrar um pouco, minha vida cultural está uma merda. Há alguns meses, comecei a ler um livro. Parei e comecei outro, que está ali agora me olhando, implorando pra ser lido. Minha falta de concentração anda absurdamente aguda. Não estou conseguindo pensar muito, apesar de me considerar um ser pensante que não se vê por aí com facilidade. Filmes? O último que vi foi "A Origem", faz um mês (!!). Nem comento peças de teatro e concertos de música erudita. Vontade eu tenho, me sinto culpada de estar tão intelectualmente pausada. Faz uns meses já. Minha vida deu muitas voltas, e ainda está dando, e sinto, nesse momento, como nunca, vontade de viver. E só. Agir. Agir. Agir. Sei que temos momentos de precisar parar, mas não quero agora. Por mim, tudo seria uma sucessão de festas, pessoas, sensações. Cores, sabores, cheiros. Uma amálgama de sensações, um êxtase aos cinco sentidos. Um chamado, sinto uma vontade incontrolável, e até estranha a mim, pois apesar de sempre viver mais do que pensar, nunca foi como está sendo agora. E no fundo, me sinto feliz com isso. Com esse empurrão que estou me dando à vida. Não sei se vai passar logo. Bom, cada um tem sua dose de momentos intelectuais que demanda sua alma. A minha pede, sempre pediu, desde garotinha, mas, nesse momento, non troppo. Nem sei o porquê da culpa (perfeccionismo rulando, as always...), e não estou mesmo num momento muito reflexivo, pra chegar numa resposta. Mas quer saber, estou sentindo um gosto imenso por essas urgências de voar pela vida. De só sentir. Irracionalmente, como animal que sou. Sentindo-me viva, radiantemente viva. E por ora, é só o que importa. É o que quero que importe. Farei na prática toda essa teorização? Contradizendo-me...
P.S.: O título é um trecho de Infinita Highway, dos Engenheiros do Hawaii. Ouvi no rádio hoje voltando pro Rio no carro do meu tio e bateu aquele sentimento de coincidências... A letra dialoga com o que sinto agora. Acho que é isso.
P.S.: O título é um trecho de Infinita Highway, dos Engenheiros do Hawaii. Ouvi no rádio hoje voltando pro Rio no carro do meu tio e bateu aquele sentimento de coincidências... A letra dialoga com o que sinto agora. Acho que é isso.
sexta-feira, 3 de setembro de 2010
Tem pano pra manga aí?
No meu post sobre as Carmina Burana, falei que voltaria a vários assuntos, que creio eu, vou esquecer de falar. Prometo a vocês, meus três leitores, que farei um esforço em prol de não olvidar. Afinal, a vida de vocês não seria a mesma sem meus preciosos e magníficos textos (ah, esqueci, esse post não é sobre ironia...). Anteriormente, disse que ia falar sobre certa figura de linguagem, a dona metáfora... Ela "figura" (com trocadilho, por favor) aqui então. E vou escrever sem colar, só na malandragem (porque todos nós sabemos que pesquisamos a lot pra escrever bonito né). Bom, começando pela etimologia (prato cheio pra mim> primeria metáfora hein!), metáfora significa "mudança de lugar" (meta> mudança; fora, forum> lugar). Então quando processamos cognitivamente essa figura de linguagem, nada mais fazemos que estar mudando de lugar um certo vocábulo-ideia. Quando digo "seus olhos são estrelas na noite ardente", percebe-se que fizemos relação entre duas coisas que aparentemente não tem relação nenhuma. Mas "forçamos" essa relação, por acharmos semelhança. Então, tcharam! Mudamos o "uso usual" (não achei nada melhor do que essa redundância absurda: licença poética, ok?) tanto de "olhos" quanto de "estrelas". E com isso, formamos uma nova ideia, só possível pelas semelhanças que vimos! Em "noite ardente" temos sinestesia, outra figura de linguagem que, ao meu ver, forçando um pouco a barra, também é um tipo de metáfora (etimologia: syn> ao mesmo tempo; estetis> sensação. Quanto ao stetis não tenho certeza, mas quase. O nome pra essa figura de linguagem veio de uma certa condição que acomete certos humanos, mas pra mim, na real, o que ocorre é que esses humanos tomam ácido e a Medicina acredita mesmo que eles ouviram um vermelho-berrante. Brincadeira, creio na existência de pessoas sinestéticas). Voltando à metáfora propriamente, ela às vezes é algo bem particular. Se dizem que "sicrano é um cão" só entendemos se bem explicado por quem fez tal relação... Podemos apenas supor, baseado na ideia que temos de cão. Um animal, de quatro patas, que late, baba, copula com qualquer cadela no cio... Mas não sabemos ao certo o que quis dizer a pessoa que disse, que aspecto canino ela quis salientar... E muitas outras figuras de linguagem, são na verdade, também metáfora. Vejamos a metonímia, que pela etimologia, nos indica também uma mudança. Mudamos um nome com seu "uso usual" pra outro. Quando dizemos bebi um copo de cerveja (primeiro exemplo que me veio à mente; hoje é sexta e estou aqui escrevendo isso e não estou bebendo cerveja...), não pegamos o copinho de vidro (o melhor pra cerveja, né) e enfiamos guela abaixo. Trocamos o conteúdo pelo continente, para haver um melhor entendimento. E já é algo natural para nós. Todos entendem que o que bebemos foi a cerva, e não o copo (mas sempre tem um engraçadinho, geralmente que fez Letras ou entende do bordado, pra fazer comentários do tipo: cuidado, vai se machucar "bebendo" o copo!). Outro exemplo, o "neguinho". "Neguinho entra na net e fala um monte de merda" (monte de merda, outra metáfora...). Em algum momento, alguém apropriou-se do diminutivo de negro, tascou uma apócope (acho que é esse o nome. Não estou pesquisando NADA aqui), e transformou em neguinho, pra indicar qualquer ser humano. Então, usou uma raça específica pra representar todo e qualquer ser humano de qualquer raça. Mais um exemplo: "andei meio sumido". Estamos usando o verbo andar, que, por ser uma ação elementar ao ser humano, cai como uma luva pra indicar que vivemos de tal modo (cai como uma luva, uma metáfora composta de expressão inteira... Que linda! E o "como" aí, parte integrante de outra figura de linguagem, mas essa muito pobrezinha, nem vale muito a pena falar dela, a comparação... Muito trivial). Então, tomamos essa ação básica inerente a todo humano, em detrimento de todas as outras... Eu poderia ficar aqui eternamente dando exemplos. ADORO!! "Metaforizamos" como respiramos. All the time. Atentemos agora para a catacrese. Essa ganhou um nome feio, e lamento, não sei a etimologia agora. Braço da poltrona, batata da perna, dente de alho... Na verdade, a catacrese é uma metáfora que deu tão certo que cristalizou-se. Ninguém usa mais nenhuma outra analogia pra essas específicas, aquela parte da poltrona, o desmembramento da cabeça de alho (olha aí). Dá pra perceber que uma tênue linha separa cada uma dessas figuras de linguagem. No fundo, é tudo a mesma boa e velha metáfora. Uns sabidões aí que inventaram de dividir. Tudo farinha do mesmo saco! (ops, outra metáfora). Assunto que dá pano pra manga esse...Ops, outra metáfora...
segunda-feira, 30 de agosto de 2010
Sobre a nobre arte de escrever
Vamos ver se sai alguma coisa que preste... Digo isso, porque me creio bem enferrujada na antiquíssima arte de grafar numa base símbolos (com seus significantes e significados) que possui minha língua nativa e que meu processo cognitivo me propicia a entendê-los e fazer-me entender por outros que compartilham da minha língua-mãe - Escrever . Eu, que fiz Letras, sou indagada por Deus e o mundo se escrevo. E digo (com vergonhas internas, não sei se justificadas... Quem faz Letras TEM que escrever?) que não... Bom, até essa feliz ideia de finalmente ter um blog. Porque eu já havia pensado nisso, mas nunca tive a coragem (sim, exatamente isso) de pegar, sentar e começar a escrever pra valer. Na verdade, tenho até uns contos meio toscos que escrevi faz alguns anos... Que infelizmente, acho que os perdi. Se eu os encontrar, postarei aqui, porque, modéstia à parte, ficaram muito bons (apesar de toscos). É difícil alguém chegar e dizer isso... MEU TEXTO É BOM. É o que vejo por aí. As pessoas são incrivelmente modestas, fazem de um tudo para explicar, justificar o seu texto. Bom, eu mesma era assim. Agora, taco um foda-se. Quem quiser ler, e se identificar, ou achar só mediano, ou bom, ou excelente, ou uma merda, paciência... Sinceramente acho que esse texto agora, está muito ruim. Vim aqui para escrever algo significativo, algo frutífero... Mas não sei. Escrever (algo que preste) não é fácil. Mas, se pararmos pra pensar, escrevemos o tempo todo. Metaforicamente falando, claro, mas sim, escrevemos. Na verdade, terminamos de escrever o que outrem começou. Quando lemos (coisa que fazemos, creio-nos pessoas letradas que vem aqui ler minhas débeis linhas...), estamos construindo o texto junto com o escritor. O escritor, sem o leitor, não escreveu nada. É uma ponte intrínseca, peça-chave fundamental do escrever. Se escrevo um belíssimo poema, como já o fez Fernando Pessoa, Clarice Lispector, Carlos Drummond (os utilizo como exemplo por serem fáceis de lembrar aqui e agora, pois dentre os tipo de texto, poesia é meu menos preferido, então, por conseguinte, minha lista de poetas é ridiculamente ínfima), e sim, estou me comparando a eles; se eles, eu, você que escreve um poema, e o guarda no fundo de uma gaveta, você realmente escreveu? Escreveu? Sim, cruamente, colocou símbolos com algum significado pra você no papel (ou qualquer outro suporte). Mas... What's the point? Acho que até é válido escrever, e após um longo tempo, você mesmo ler de novo o que escreveu. Eu aliás, tenho diários, longos escritos, na minha fase de passagem da infância pra adolescência. É tão estranho lê-los hoje... Hoje me dizem muito, mas muito mesmo. Um novo diálogo comigo mesma. Mas, voltando... Escrever e esconder, ou jogar fora, estamos poupando outras pessoas de de repente, se encantar, ou ter ideias, com o que escrevemos, mesmo se achamos que se trata de uma bela porcaria... Então, é preciso comunicá-lo, levá-lo ao entendimento de outra mente pensante (configura-se aqui o leitor), para enfim, um texto nascer. Um texto nada mais é do que uma parede construída faltando tijolos, que serão colocados por vocês, leitores. (metáfora usada pelo meu professor de Lit. Bras. VI, no primeiro período da faculdade, que nunca mais esqueci). Estancando agora minha linha de pensamento, e mudando (ou voltando) o rumo desse texto, aqui vejo o quanto escrever se equipara a tantas coisas que prescindem de prática. Andar de bicicleta, tocar um instrumento, beber, amar... Estou escrevendo, mas sinto meus dedos e minha mente um tanto confusos, desengonçados. Com o tempo, escrevendo mais, sei que poderei tornar-me um às da literatura! (risos). Aproveitando o ensejo (e mudando o rumo novamente... Minha mente não consegue focar muito tempo num ponto), falarei da metáfora. Estava lendo sobre isso num outro blog, e também é uma questão que sempre anda comigo, a incrível formação, o processo de formação da metáfora (e de tantas outras figuras de linguagem... sou aficcionada nelas, acho fantástico!). Sabe, acho que isso vai dar pano pra manga (com o perdão dessa última metáfora)... Então, como quem começou a escrever sem saber o que escrever, até que me estendi por demais... Para não ficar enfadonho e espantar ou pouquíssimos leitores que tenho no momento, acho melhor postar somente (risos) isso. A metáfora fica pra próxima. Nossa, como meu poder de síntese (e de foco) é quase nulo... Preciso trabalhar isso. Ou não! Talvez esteja inaugurando um novo estilo de escrita, só meu... Por que não? Um belo dia alguém irá dizer sobre mim: "...blá blá blá, Juliana, cujo estilo se baseava na prolixidade, mudança constante de foco e uso excessivo de parênteses, reticências e metáforas..." Acho que, no fundo, tenho mais a escrever do que eu outrora imaginava...
quarta-feira, 25 de agosto de 2010
Carmina Burana - Canções dos Beurens
http://www.youtube.com/watch?v=QEllLECo4OM
Poemas dos goliardos (monges e eruditos errantes), encontrados em Benediktbeuern (cidade alemã) no século 19. Carl Orff os musicou, apesar de encontrar junto com o códex um andamento musical, indicando que já eram propícios para tal. A temática gira em torno da Fortuna, deusa romana da antiguidade, em quem os povos antigos depositavam fé, e acreditavam dona de imensos poder e influência na vida (também acham? pois é...), com o dom de ora dar, ora tirar. Pausa pra falar da Antiguidade: todo mito é uma metáfora, claro, mas na sua origem, numa época em que as pessoas realmente acreditavam nos deuses e nos seus poderes, as parábolas (atrevo-me a dizer que a da deusa Fortuna mais que outras) eram de extrema importância, chegando a guiar o rumo da vidas das pessoas, como hoje o deus cristão é para muitos (não vou entrar aqui nas questão de que os cristãos "afanaram" muitos dos mitos e ícones da mitologia dita pagã. Isso é papo pra outro dia). A ciência das coisas da vida, do natural (e do sobrenatural também), são assuntos que o homem desde a antiguidade se ocupa em estudar, entender, e os mitos vieram na tentativa de explicá-los. E mesmo numa época em que eles não mais acreditavam piamente nos mitos e nos deuses, ainda assim prestavam respeito e davam o devido valor a outrora forma de ver o mundo (lembrei agora das feiticeiras de Horácio... praticando o culto à Hécate, faziam simpatias, patuás... algo como uma macumba braba da Antiguidade. Depois escrevo sobre elas.). Voltando ao códex, ele foi escrito numa época (nesse ponto que eu queria chegar) em que os tabus e a noção de pecado ainda não estavam disseminados no pensamento do homem. Século XIII, ainda na gênese dos dogmas cristãos, os monges (e as pessoas em geral), viviam suas vidas, experimentavam os prazeres dela sem culpa. Sem relacionar, qualquer momento de júbilo, à ideia de que eles eram "maus" e iriam para o inferno serem cutucados eternamente pelo tridente de algum demônio. Ler Cícero, ler Catulo, entre outros, nos mostra que para eles, a ética e o bem portar para com as outras pessoas (em suma, ser uma pessoa boa, de bom caráter), nada tinha a ver com o fato de copular com trocentos garotinhos e garotinhas bêbedos de vinho, encher a pança com faisões e leitões e depois dormir 2 dias seguidos. A merda do cristianismo que fez isso com a nossa mente. Pra eles, isso nem era um problema, não havia assimilação entre uma coisa e outra. Tentar imaginar, tentar ter a mesma mentalidade é algo extremamente difícil, e na minha faculdade (fiz Letras- português/latim), éramos obrigados (no bom sentido) a exercitar esse pensamento.Quando digo que é difícil, é porque nós, que somos "modernos" e livres das amarras religiosas que conduzem a vida de muita gente boa, mesmo assim, a noção de pecado não deixa nossas mentes. Sei disso. é algo que é intrínseco à nossa formação, à nossa criação numa sociedade majoritariamente católica. Ler os clássicos, e penetrar na mente dos autores, tentar "incorporar" a realidade da sociedade, era ao mesmo tempo prazeroso e complexo. Já é complicado fazê-lo com um autor moderno e brasileiro, imagina com um autor romano de "apenas" 20 séculos atrás. Comecei a escrever esse texto pra falar dos Carmina Burana, pois faz tempo eles não saem da minha cabeça. Mas alguém pode pensar: estou falando de poemas escritos na Baixa Idade Média, mas também fazendo uma mistureba, falando da era Antiga... Tudo bem, 13 séculos poderia ser um tempo considerável para mudanças no pensamento humano.Coisa na qual NÃO acredito. Visto que, hoje em dia, o homem me parece mais medieval (no sentido pejorativo que muitos atribuem) do que os próprios homens medievais. Certos procederes e pensamentos se arraigam na mente humana como um carrapato sedento de sangue o faz num vira-lata, e não mudam assim. É passado por gerações e gerações. E gerações. Vejo essa sociedade em que vivo, como as pessoas ainda são machistas (ok, modelo romano patriarcal impera aqui mesmo, mas não quer dizer que não se possa mudar. Mirem as marchas feministas, que considero até radicais... ops, assunto também pra outra ocasião), são tão atrasadas intelectualmente falando... Deparo-me às vezes com certos indivíduos que fica difícil acreditar que não estou lidando com um camponês que acabou de chegar numa máquina do tempo direto de seu feudo no interior da Alemanha do século XIV... Bom, acho que não estou madura o suficiente culturalmente falando, sou garota ainda nos profundos conhecimentos da humanidade. Mas de uma coisa tenho certeza: muitos dos males da sociedade atual poderiam ser curados (ou evitados), com uma leitura incisiva dos clássicos, ou generalizando, de quaisquer textos deixados pelos antigos (sejam romanos, gregos, egípicios, chineses, celtas...).
Enfim, vida longa à ANTIGUIDADE!! AVE!!
P.S.: A roda da fortuna levou-me agora a uma bela associação com um símbolo de extrema importância para uma outra sociedade antiga que também venero, os celtas... Falo da triskel... Assunto também pra outro post. ;)
P.S.2: As questões tratadas no meu primeiro post foram superestimadas por mim... Nisso que dá, como ariana nervosinha e ansiosa que sou, sair escrevendo de cabeça quente. O diabo nem sempre é tão feio como a gente pinta. Hoje tive um ótimo diálogo com meu chefe, que elucidou vários pseudo-problemas. Mas a luta continua... =)
Poemas dos goliardos (monges e eruditos errantes), encontrados em Benediktbeuern (cidade alemã) no século 19. Carl Orff os musicou, apesar de encontrar junto com o códex um andamento musical, indicando que já eram propícios para tal. A temática gira em torno da Fortuna, deusa romana da antiguidade, em quem os povos antigos depositavam fé, e acreditavam dona de imensos poder e influência na vida (também acham? pois é...), com o dom de ora dar, ora tirar. Pausa pra falar da Antiguidade: todo mito é uma metáfora, claro, mas na sua origem, numa época em que as pessoas realmente acreditavam nos deuses e nos seus poderes, as parábolas (atrevo-me a dizer que a da deusa Fortuna mais que outras) eram de extrema importância, chegando a guiar o rumo da vidas das pessoas, como hoje o deus cristão é para muitos (não vou entrar aqui nas questão de que os cristãos "afanaram" muitos dos mitos e ícones da mitologia dita pagã. Isso é papo pra outro dia). A ciência das coisas da vida, do natural (e do sobrenatural também), são assuntos que o homem desde a antiguidade se ocupa em estudar, entender, e os mitos vieram na tentativa de explicá-los. E mesmo numa época em que eles não mais acreditavam piamente nos mitos e nos deuses, ainda assim prestavam respeito e davam o devido valor a outrora forma de ver o mundo (lembrei agora das feiticeiras de Horácio... praticando o culto à Hécate, faziam simpatias, patuás... algo como uma macumba braba da Antiguidade. Depois escrevo sobre elas.). Voltando ao códex, ele foi escrito numa época (nesse ponto que eu queria chegar) em que os tabus e a noção de pecado ainda não estavam disseminados no pensamento do homem. Século XIII, ainda na gênese dos dogmas cristãos, os monges (e as pessoas em geral), viviam suas vidas, experimentavam os prazeres dela sem culpa. Sem relacionar, qualquer momento de júbilo, à ideia de que eles eram "maus" e iriam para o inferno serem cutucados eternamente pelo tridente de algum demônio. Ler Cícero, ler Catulo, entre outros, nos mostra que para eles, a ética e o bem portar para com as outras pessoas (em suma, ser uma pessoa boa, de bom caráter), nada tinha a ver com o fato de copular com trocentos garotinhos e garotinhas bêbedos de vinho, encher a pança com faisões e leitões e depois dormir 2 dias seguidos. A merda do cristianismo que fez isso com a nossa mente. Pra eles, isso nem era um problema, não havia assimilação entre uma coisa e outra. Tentar imaginar, tentar ter a mesma mentalidade é algo extremamente difícil, e na minha faculdade (fiz Letras- português/latim), éramos obrigados (no bom sentido) a exercitar esse pensamento.Quando digo que é difícil, é porque nós, que somos "modernos" e livres das amarras religiosas que conduzem a vida de muita gente boa, mesmo assim, a noção de pecado não deixa nossas mentes. Sei disso. é algo que é intrínseco à nossa formação, à nossa criação numa sociedade majoritariamente católica. Ler os clássicos, e penetrar na mente dos autores, tentar "incorporar" a realidade da sociedade, era ao mesmo tempo prazeroso e complexo. Já é complicado fazê-lo com um autor moderno e brasileiro, imagina com um autor romano de "apenas" 20 séculos atrás. Comecei a escrever esse texto pra falar dos Carmina Burana, pois faz tempo eles não saem da minha cabeça. Mas alguém pode pensar: estou falando de poemas escritos na Baixa Idade Média, mas também fazendo uma mistureba, falando da era Antiga... Tudo bem, 13 séculos poderia ser um tempo considerável para mudanças no pensamento humano.Coisa na qual NÃO acredito. Visto que, hoje em dia, o homem me parece mais medieval (no sentido pejorativo que muitos atribuem) do que os próprios homens medievais. Certos procederes e pensamentos se arraigam na mente humana como um carrapato sedento de sangue o faz num vira-lata, e não mudam assim. É passado por gerações e gerações. E gerações. Vejo essa sociedade em que vivo, como as pessoas ainda são machistas (ok, modelo romano patriarcal impera aqui mesmo, mas não quer dizer que não se possa mudar. Mirem as marchas feministas, que considero até radicais... ops, assunto também pra outra ocasião), são tão atrasadas intelectualmente falando... Deparo-me às vezes com certos indivíduos que fica difícil acreditar que não estou lidando com um camponês que acabou de chegar numa máquina do tempo direto de seu feudo no interior da Alemanha do século XIV... Bom, acho que não estou madura o suficiente culturalmente falando, sou garota ainda nos profundos conhecimentos da humanidade. Mas de uma coisa tenho certeza: muitos dos males da sociedade atual poderiam ser curados (ou evitados), com uma leitura incisiva dos clássicos, ou generalizando, de quaisquer textos deixados pelos antigos (sejam romanos, gregos, egípicios, chineses, celtas...).
Enfim, vida longa à ANTIGUIDADE!! AVE!!
P.S.: A roda da fortuna levou-me agora a uma bela associação com um símbolo de extrema importância para uma outra sociedade antiga que também venero, os celtas... Falo da triskel... Assunto também pra outro post. ;)
P.S.2: As questões tratadas no meu primeiro post foram superestimadas por mim... Nisso que dá, como ariana nervosinha e ansiosa que sou, sair escrevendo de cabeça quente. O diabo nem sempre é tão feio como a gente pinta. Hoje tive um ótimo diálogo com meu chefe, que elucidou vários pseudo-problemas. Mas a luta continua... =)
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