Fato que ocorreu comigo hoje:
Estava indo ao mercado, muito pensativa na vida (coisa que tenho feito constante e ultimamente). Pensando em como nada faz sentido nessa vida. Tudo é uma grande incongruência. Na verdade, tenho uma teoria: esse mundo é feito de pequenas incongruências, tudo são fatos sem sentido nenhum pra mim. Só uma sucessão de nonsenses... E juntando tudo, dá, o que nomeio, uma grande incongruência.
Enfim, fui ao mercado. Então, na hora de pagar, cheguei numa caixa vazia, ela estava absorta em algum pensamento. Achei curioso. Cheguei e perguntei: está aberto? Ao que ela respondeu: não... brincadeira, tá sim. E foi tão jogral, tão cômica, que rimos uma olhando pra outra. Foi um acontecimento muito nonsense. Parei e respondi, sem pensar e ao mesmo tempo pensando, e falando: muito engraçadinha você. Ela me pareceu surpresa com minha afirmação. Rimos e passei as compras. Depois ela me deu o cartão e riu, falando tchau. Durante a passagem das compras, cogitei: tá aí uma pessoa que eu chamaria pra sair. Rolou empatia, dessas que ocorrem corriqueiramente, com desconhecidos. Se eu estivesse bêbada, provavelmente a teria chamado pra sair. hehe
Porque a bebida só joga pra fora a verdade. O que sentimos mas não temos coragem de falar e fazer. Fato. É aquela frase: a bebida entra, a verdade sai.
O negócio é que isso me fez pensar mais ainda. Como que pode esse tipo de coisa acontecer? Num pequeníssimo momento tudo fez sentido. Aquele momento foi de total sentido. Mas, logo que saí do mercado, passou a ser absurdo. E ainda o é.
Tudo ainda é. E tenho uma nova teoria: a vida é feita de pequenos momentos, como esse, pra nos fazer ruminar e pensar que vale a pena viver. Pra viver coisas assim.
Foi divertido.
Poderia terminar isso dizendo algo altamente filosófico, mas, sendo minha própria filósofa, (não ligo muito pra o que os Nietzsches da vida falam, pois sou capaz de achar minha própria filosofia e sou satisfeita assim) guardo pra mim. Nem poderia explicitar com palavras, não sou muito boa com isso mesmo.
Então é isso. A vida é um grande parque. Pra mim, obviously.
O que mais me faz feliz, faz essa vida ser um grande parque, divertido e alegre? A música. Mas isso é assunto pra outro post. (Vivo adiando falar sobre música, porque temo não ser capaz de fazer jus a verdadeira musa inspiradora que ela é).
Paro por aqui.
quarta-feira, 6 de abril de 2011
quarta-feira, 16 de março de 2011
Blá blá blá antropológico e conselhos femininos
http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI218479-15230,00-QUANDO+AS+MULHERES+DIZEM+NAO.html
Antes de comentar sobre esse texto do link propriamente, tecerei poucas, parcas e rasas considerações:
Espero não soar prepotentemente superior, ou escrota.
Não vou atacar os homens, pois gosto muito deles e os admiro com todas as características, negativas e positivas inerentes ao sexo, e digo isso, claro, do meu ponto de vista feminino (pois é o único que conheço, rs).
E que também fique claro, não estou me colocando a favor deles, assim como não me coloco a favor das mulheres. Baseio-me não tão somente nos estudos científicos comportamentais divisores de gênero, com os quais concordo (em tese) mas, principalmente, na minha experiência enquanto ser social e observadora das relações entre homens e mulheres, homens e homens e mulheres e mulheres. Sei (sabemos, creio) que existe sim certo padrão comportamental. E pretendo levar o texto e a vida, apenas explicitando, observando as características, sem julgar nenhum “lado”. Até porque não acho que existam culpados. Talvez uma culpa histórica, mas isso é outra história, vai ficar gigante esse texto se eu começar a falar da Roma antiga, do pater famílias... etc.
Prescinde-se de evolução. Pode ser evolução cultural, quando vejo culturas mais desenvolvidas, livres de quaisquer preconceitos de gênero; ou educacional, quando a criança é criada num âmbito familiar onde a diferenciação sexual impera; ou psicológica, onde haja uma misoginia (ou ódio aos homens, não existe palavra para a ideia no dicionário. Nem me surpreendi. Ah, ódio às crianças existe: misopedia. Agora, misoandria, que seria o nome certo, não há. Mas continuando...) desenvolvida pela pessoa, sem explicação na influência do meio; ou emocional, também amparada pelo seio familiar, tal qual a educacional. Enfim, cada caso é um caso, não tem como precisar. O fato é que muitos (e muitas) sofrem de algum tipo de “freio” que dificulta suas relações...
Sei que não sou e estou longe de ser perfeita e totalmente evoluída. Quem sou eu pra vir aqui falar esse monte? Quem ler esse texto vai pensar que sou a mulher perfeita. A verdade é que sei que a teoria é linda e maravilhosa, mas sou humana, o que me faz ter sentimentos, e que na prática, muitas vezes (muitas, rs), faz tudo isso ir por água abaixo. Mas admito que pelo menos refletir eu faço.
E observem, disse isso tudo sem tombar mais pro lado da mulher, ou do homem. Todos somos culpados nas nossas relações, e muitas vezes a mulher que, aos prantos, acusa um homem de insensível, filho da puta e machista, é até mais machista que o próprio cara.
Agora, um bate-papo amigo, sobre o texto do Ivan Martins:
Realmente, tudo isso é lindo, mas só é válido para homens maduros (emocional e psicologicamente falando).
Ser honesta consigo mesma (coisa que sou totalmente a favor), já mostrar naturalmente o interesse (físico), pode fazer com que alguns seres do sexo masculino nos tachem de “fáceis” ou coisa pior, acabando por se mostrarem imensamente babacas e imaturos, não dando cabo da relação incipiente com a consideração e eficiência necessárias.
Acho que os homens não precisam ser fofinhos e comiserados, mas sim diretos, “colocando as cartas na mesa”. Sinceros. Sem enrolação, sem mimimi. E, por favor, com o mínimo de educação né.
É tão simples...
Bom, talvez eu ache simples porque ajo assim, faz parte do meu “código de conduta”. Não vejo nem entendo ter diferenciações no jeito em que o homem deve lidar com a mulher, ou vice-versa. Respeito e consideração devem ser usados o tempo todo, independente da relação.
Nem todos (e todas) tem o pensamento direcionado dessa forma...
Mas vale a pena refletir.
Eu dando dicas de relacionamento, vê se pode. Fim dos tempos mesmo.
Antes de comentar sobre esse texto do link propriamente, tecerei poucas, parcas e rasas considerações:
Espero não soar prepotentemente superior, ou escrota.
Não vou atacar os homens, pois gosto muito deles e os admiro com todas as características, negativas e positivas inerentes ao sexo, e digo isso, claro, do meu ponto de vista feminino (pois é o único que conheço, rs).
E que também fique claro, não estou me colocando a favor deles, assim como não me coloco a favor das mulheres. Baseio-me não tão somente nos estudos científicos comportamentais divisores de gênero, com os quais concordo (em tese) mas, principalmente, na minha experiência enquanto ser social e observadora das relações entre homens e mulheres, homens e homens e mulheres e mulheres. Sei (sabemos, creio) que existe sim certo padrão comportamental. E pretendo levar o texto e a vida, apenas explicitando, observando as características, sem julgar nenhum “lado”. Até porque não acho que existam culpados. Talvez uma culpa histórica, mas isso é outra história, vai ficar gigante esse texto se eu começar a falar da Roma antiga, do pater famílias... etc.
Prescinde-se de evolução. Pode ser evolução cultural, quando vejo culturas mais desenvolvidas, livres de quaisquer preconceitos de gênero; ou educacional, quando a criança é criada num âmbito familiar onde a diferenciação sexual impera; ou psicológica, onde haja uma misoginia (ou ódio aos homens, não existe palavra para a ideia no dicionário. Nem me surpreendi. Ah, ódio às crianças existe: misopedia. Agora, misoandria, que seria o nome certo, não há. Mas continuando...) desenvolvida pela pessoa, sem explicação na influência do meio; ou emocional, também amparada pelo seio familiar, tal qual a educacional. Enfim, cada caso é um caso, não tem como precisar. O fato é que muitos (e muitas) sofrem de algum tipo de “freio” que dificulta suas relações...
Sei que não sou e estou longe de ser perfeita e totalmente evoluída. Quem sou eu pra vir aqui falar esse monte? Quem ler esse texto vai pensar que sou a mulher perfeita. A verdade é que sei que a teoria é linda e maravilhosa, mas sou humana, o que me faz ter sentimentos, e que na prática, muitas vezes (muitas, rs), faz tudo isso ir por água abaixo. Mas admito que pelo menos refletir eu faço.
E observem, disse isso tudo sem tombar mais pro lado da mulher, ou do homem. Todos somos culpados nas nossas relações, e muitas vezes a mulher que, aos prantos, acusa um homem de insensível, filho da puta e machista, é até mais machista que o próprio cara.
Agora, um bate-papo amigo, sobre o texto do Ivan Martins:
Realmente, tudo isso é lindo, mas só é válido para homens maduros (emocional e psicologicamente falando).
Ser honesta consigo mesma (coisa que sou totalmente a favor), já mostrar naturalmente o interesse (físico), pode fazer com que alguns seres do sexo masculino nos tachem de “fáceis” ou coisa pior, acabando por se mostrarem imensamente babacas e imaturos, não dando cabo da relação incipiente com a consideração e eficiência necessárias.
Acho que os homens não precisam ser fofinhos e comiserados, mas sim diretos, “colocando as cartas na mesa”. Sinceros. Sem enrolação, sem mimimi. E, por favor, com o mínimo de educação né.
É tão simples...
Bom, talvez eu ache simples porque ajo assim, faz parte do meu “código de conduta”. Não vejo nem entendo ter diferenciações no jeito em que o homem deve lidar com a mulher, ou vice-versa. Respeito e consideração devem ser usados o tempo todo, independente da relação.
Nem todos (e todas) tem o pensamento direcionado dessa forma...
Mas vale a pena refletir.
Eu dando dicas de relacionamento, vê se pode. Fim dos tempos mesmo.
sexta-feira, 11 de março de 2011
My Heart - мое сердце - Mit Hjerte - Mio Cuore - Meu Coração
"Na terra do coração passei o dia pensando - coração meu, meu coração. Pensei e pensei tanto que deixou de significar uma forma, um órgão, uma coisa. Ficou só com-cor, ação - repetido, invertido - ação, cor - sem sentido - couro, ação e não. Quis vê-lo, escapava. Batia e rebatia, escondido no peito. Então fechei os olhos, viajei. E como quem gira um caleidoscópio, vi:
Meu coração é um sapo rajado, viscoso e cansado, à espera do beijo prometido capaz de transformá-lo em príncipe.
Meu coração é um álbum de retratos tão antigos que suas faces mal se adivinham. Roídas de traça, amareladas de tempo, faces desfeitas, imóveis, cristalizadas em poses rígidas para o fotógrafo invisível. Este apertava os olhos quando sorria. Aquela tinha um jeito peculiar de inclinar a cabeça. Eu viro as folhas, o pó resta nos dedos, o vento sopra.
Meu coração é um mendigo mais faminto da rua mais miserável.Meu coração é um ideograma desenhado a tinta lavável em papel de seda onde caiu uma gota d’água. Olhado assim, de cima, pode ser Wu Wang, a Inocência. Mas tão manchado que talvez seja Ming I, o Obscurecimento da Luz. Ou qualquer um, ou qualquer outro: indecifrável.
Meu coração não tem forma, apenas som. Um noturno de Chopin (será o número 5?) em que Jim Morrison colocou uma letra falando em morte, desejo e desamparo, gravado por uma banda punk. Couro negro, prego e piano.
Meu coração é um bordel gótico em cujos quartos prostituem-se ninfetas decaídas, cafetões sensuais, deusas lésbicas, anões tarados, michês baratos, centauros gays e virgens loucas de todos os sexos.
Meu coração é um traço seco. Vertical, pós-moderno, coloridíssimo de neon, gravado em fundo preto. Puro artifício, definitivo.
Meu coração é um entardecer de verão, numa cidadezinha à beira-mar. A brisa sopra, saiu a primeira estrela. Há moças na janela, rapazes pela praça, tules violetas sobre os montes onde o sol se p6os. A lua cheia brotou do mar. Os apaixonados suspiram. E se apaixonam ainda mais.
Meu coração é um anjo de pedra de asa quebrada.
Meu coração é um bar de uma única mesa, debruçado sobre a qual um único bêbado bebe um único copo de bourbon, contemplado por um único garçom. Ao fundo, Tom Waits geme um único verso arranhado. Rouco, louco.Meu coração é um sorvete colorido de todas as cores, é saboroso de todos os sabores. Quem dele provar, será feliz para sempre.
Meu coração é uma sala inglesa com paredes cobertas por papel de florzinhas miúdas. Lareira acesa, poltronas fundas, macias, quadros com gramados verdes e casas pacíficas cobertas de hera. Sobre a renda branca da toalha de mesa, o chá repousa em porcelana da China. No livro aberto ao lado, alguém sublinhou um verso de Sylvia Plath: "Im too pure for you or anyone". Não há ninguém nessa sala de janelas fechadas.
Meu coração é um filme noir projetado num cinema de quinta categoria. A platéia joga pipoca na tela e vaia a história cheia de clichês.
Meu coração é um deserto nuclear varrido por ventos radiativos.
Meu coração é um cálice de cristal puríssimo transbordante de licor de strega. Flambado, dourado. Pode-se ter visões, anunciações, pressentimentos, ver rostos e paisagens dançando nessa chama azul de ouro.
Meu coração é o laboratório de um cientista louco varrido, criando sem parar Frankensteins monstruosos que sempre acabam destruindo tudo.
Meu coração é uma planta carnívora morta de fome. Meu coração é uma velha carpideira portuguesa, coberta de preto, cantando um fado lento e cheia de gemidos - ai de mim! ai, ai de mim!
Meu coração é um poço de mel, no centro de um jardim encantado, alimentando beija-flores que, depois de prová-lo, transformam-se magicamente em cavalos brancos alados que voam para longe, em direção à estrela Veja. Levam junto quem me ama, me levam junto também. Faquir involuntário, cascata de champanha, púrpura rosa do Cairo, sapato de sola furada, verso de Mário Quintana, vitrina vazia, navalha afiada, figo maduro, papel crepom, cão uivando pra lua, ruína, simulacro, varinha de incenso.
Acesa, aceso - vasto, vivo: meu coração é teu"
Caio F. Abreu
Reflexões profundas, num momento profundo:
Toda vez que alguém se apaixona um novo clichê não é formado? não somos todos humanos? O que sinto também é passível pra você. logo, você se identificaria com meu (novo) clichê...
Estrofe 5: acho que EU não preciso explicar (ou melhor, mostrar minha IDentificação com) a analogia com a música. (Não nesse post.)
Cada parte, em que começa meu coração (literal e não-literalmente), sente-se uma nova cor vigorar, um novo sentimento construído (descrito, tentativa válida, pelo menos), e todos, todos humanos.
Eu sei que sinto o mesmo que você sentiu, ou que ainda vai sentir.
Então...
Talvez hajam ainda mais maneiras de se sentir... Porque o sentimento humano (nosso, lembra?) é sempre imprevisível... Ou previsível, pressentindo-nos dele... Empatia. Coisa pressentida.
O fato é que sentir... é isso. Isso nos faz vivos. Único sentido. Sensações. Minha religião.
Meu coração é um sapo rajado, viscoso e cansado, à espera do beijo prometido capaz de transformá-lo em príncipe.
Meu coração é um álbum de retratos tão antigos que suas faces mal se adivinham. Roídas de traça, amareladas de tempo, faces desfeitas, imóveis, cristalizadas em poses rígidas para o fotógrafo invisível. Este apertava os olhos quando sorria. Aquela tinha um jeito peculiar de inclinar a cabeça. Eu viro as folhas, o pó resta nos dedos, o vento sopra.
Meu coração é um mendigo mais faminto da rua mais miserável.Meu coração é um ideograma desenhado a tinta lavável em papel de seda onde caiu uma gota d’água. Olhado assim, de cima, pode ser Wu Wang, a Inocência. Mas tão manchado que talvez seja Ming I, o Obscurecimento da Luz. Ou qualquer um, ou qualquer outro: indecifrável.
Meu coração não tem forma, apenas som. Um noturno de Chopin (será o número 5?) em que Jim Morrison colocou uma letra falando em morte, desejo e desamparo, gravado por uma banda punk. Couro negro, prego e piano.
Meu coração é um bordel gótico em cujos quartos prostituem-se ninfetas decaídas, cafetões sensuais, deusas lésbicas, anões tarados, michês baratos, centauros gays e virgens loucas de todos os sexos.
Meu coração é um traço seco. Vertical, pós-moderno, coloridíssimo de neon, gravado em fundo preto. Puro artifício, definitivo.
Meu coração é um entardecer de verão, numa cidadezinha à beira-mar. A brisa sopra, saiu a primeira estrela. Há moças na janela, rapazes pela praça, tules violetas sobre os montes onde o sol se p6os. A lua cheia brotou do mar. Os apaixonados suspiram. E se apaixonam ainda mais.
Meu coração é um anjo de pedra de asa quebrada.
Meu coração é um bar de uma única mesa, debruçado sobre a qual um único bêbado bebe um único copo de bourbon, contemplado por um único garçom. Ao fundo, Tom Waits geme um único verso arranhado. Rouco, louco.Meu coração é um sorvete colorido de todas as cores, é saboroso de todos os sabores. Quem dele provar, será feliz para sempre.
Meu coração é uma sala inglesa com paredes cobertas por papel de florzinhas miúdas. Lareira acesa, poltronas fundas, macias, quadros com gramados verdes e casas pacíficas cobertas de hera. Sobre a renda branca da toalha de mesa, o chá repousa em porcelana da China. No livro aberto ao lado, alguém sublinhou um verso de Sylvia Plath: "Im too pure for you or anyone". Não há ninguém nessa sala de janelas fechadas.
Meu coração é um filme noir projetado num cinema de quinta categoria. A platéia joga pipoca na tela e vaia a história cheia de clichês.
Meu coração é um deserto nuclear varrido por ventos radiativos.
Meu coração é um cálice de cristal puríssimo transbordante de licor de strega. Flambado, dourado. Pode-se ter visões, anunciações, pressentimentos, ver rostos e paisagens dançando nessa chama azul de ouro.
Meu coração é o laboratório de um cientista louco varrido, criando sem parar Frankensteins monstruosos que sempre acabam destruindo tudo.
Meu coração é uma planta carnívora morta de fome. Meu coração é uma velha carpideira portuguesa, coberta de preto, cantando um fado lento e cheia de gemidos - ai de mim! ai, ai de mim!
Meu coração é um poço de mel, no centro de um jardim encantado, alimentando beija-flores que, depois de prová-lo, transformam-se magicamente em cavalos brancos alados que voam para longe, em direção à estrela Veja. Levam junto quem me ama, me levam junto também. Faquir involuntário, cascata de champanha, púrpura rosa do Cairo, sapato de sola furada, verso de Mário Quintana, vitrina vazia, navalha afiada, figo maduro, papel crepom, cão uivando pra lua, ruína, simulacro, varinha de incenso.
Acesa, aceso - vasto, vivo: meu coração é teu"
Caio F. Abreu
Reflexões profundas, num momento profundo:
Toda vez que alguém se apaixona um novo clichê não é formado? não somos todos humanos? O que sinto também é passível pra você. logo, você se identificaria com meu (novo) clichê...
Estrofe 5: acho que EU não preciso explicar (ou melhor, mostrar minha IDentificação com) a analogia com a música. (Não nesse post.)
Cada parte, em que começa meu coração (literal e não-literalmente), sente-se uma nova cor vigorar, um novo sentimento construído (descrito, tentativa válida, pelo menos), e todos, todos humanos.
Eu sei que sinto o mesmo que você sentiu, ou que ainda vai sentir.
Então...
Talvez hajam ainda mais maneiras de se sentir... Porque o sentimento humano (nosso, lembra?) é sempre imprevisível... Ou previsível, pressentindo-nos dele... Empatia. Coisa pressentida.
O fato é que sentir... é isso. Isso nos faz vivos. Único sentido. Sensações. Minha religião.
terça-feira, 18 de janeiro de 2011
Sentir: verbo mais babaca.
Hoje acordei, após um sonho conturbado (provável fruto de um fim de semana orgiástico, mentalmente falando: reflexões profundas, mais do que achei que seria capaz).
Não vou contar o sonho, pois não concerne. O fato é que agora estou sentindo algo parecido com cólera. Ira.
Isso porque hoje de manhã, fazendo o café, consegui finalmente chorar. Talvez outro fruto desagradável do fim de semana, e por conseguinte, do sonho. Desagradável? Sim. Na hora, foi um alívio inenarrável. Mas ao mesmo tempo ruim. Como agora está sendo. E como tem sido, há alguns dias. Não, não quero entrar no cerne do motivo principal. Porque há um principal, e outros sequentes, como uma árvore genealógica emocional. Ou uma bola de neve, se prefere referências lineares.
(Me dou conta que ninguém vai entender nada disso aqui. Enfim. Escrevo mais por uma necessidade do meu âmago do que para deleites alheios. Só publico pra ter o registro.)
A questão, a que tudo se resumiu no dia de hoje, é:
Por que razão infernal e absurda (aquilo que não pode se ouvido) seres humanos temos sentimentos?
Qual o propósito? O porquê?????????????????????????
Não, não ajuda na sobrevivência. Não há justificativa evolutiva.
É uma merda. Só isso. Só. Isso.
Temos a racionalidade. Temos os sentimentos. O primeiro sim, teria um porquê. Nascemos desprovidos de carapaças, asas, chifres. Somos, anatomicamente, um fracasso para o fim da sobrevivência. Mas temos raciocínio.
E os sentimentos? Pra que sentimos? Amor?
Alegria? Tristeza?
Os sentimentos bons (sei que isso depende do ponto de vista, mas considero aquilo que é bom de sentir, que é prazeroso), até alguns estudiosos da medicina poderiam dizer: "ah, o estado de amor (ou felicidade, alegria, whatever) relaxa, libera hormônios, diminui o estresse e blá blá."
Mas, e o contrário? Quando passamos a sentir o contrário? Ou pior, quando somos obrigados a sentir o contrário?
Ajuda em quê, pergunto aos médicos?
Porra nenhuma.
Só há retrocessos.
Pode ser útil no amadurecimento, na evolução da psiquê.
Mas, sinceramente... A dor que causa não vale a pena.
No final, seremos criaturas hiper maduras (oh, que lindo!), mas cheias de cicatrizes. E pra quê? Se fosse pra ajudar em outras relações... Mas e as pessoas que passam a vida inteirinha pa aprender "certas lições"? Morre, e aí? Só sofreu.
(Também não vou entrar em nenhum embate religioso aqui. Já basta o que sinto, peloamordedeus.)
Normalmente, acho aquela máxima "melhor sentir um dia e perder do que nunca sentir" verdadeira.
Mas hoje... Acho melhor não sentir nada. Nunca. Porque o que vem depois... E depois... Às vezes, passam-se meses, anos... E a coisa não melhora. Toma proporções de tal profundidade que nunca achei possível.
Proporções requintadas.
Agora, sou mais partidária da frase: "o tempo não cura nada. O tempo só tira o incurável do foco de atenção."
Pois é. E vira e mexe, ele volta, apoteótico. Querendo toda a atenção pra ele. Uma plateia. Palmas.
Mas não. Não posso deixar, não posso. Algo tem que ser feito. Ele (o incurável), tem que sumir. Ou melhor, ser sumido. Alguém precisa sequestrá-lo pra mim. Dar um chá de sumiço nele. Não pode entrar no palco. Quer dizer, não pode ter outras apresentações. A prévia já deu. Já foi suficiente pra mim.
E que alguém será esse, a raptar e matar o incurável?
Estou no aguardo. Sim, sou fraca. Melhor, estou fraca. Sozinha não dou conta.
Passivamente me encontro.
É como me sinto hoje. Na expectativa de um novo espetáculo.
~.~.~.~.~.~.~.~
É, terminando... Vejo que ainda tenho esperanças. rs
Meu caso não é de todo mal.
~.~.~.~.~.~.~.~
Não curto me expor tanto assim. Mas fez-se de extrema urgência hoje.
Não vou contar o sonho, pois não concerne. O fato é que agora estou sentindo algo parecido com cólera. Ira.
Isso porque hoje de manhã, fazendo o café, consegui finalmente chorar. Talvez outro fruto desagradável do fim de semana, e por conseguinte, do sonho. Desagradável? Sim. Na hora, foi um alívio inenarrável. Mas ao mesmo tempo ruim. Como agora está sendo. E como tem sido, há alguns dias. Não, não quero entrar no cerne do motivo principal. Porque há um principal, e outros sequentes, como uma árvore genealógica emocional. Ou uma bola de neve, se prefere referências lineares.
(Me dou conta que ninguém vai entender nada disso aqui. Enfim. Escrevo mais por uma necessidade do meu âmago do que para deleites alheios. Só publico pra ter o registro.)
A questão, a que tudo se resumiu no dia de hoje, é:
Por que razão infernal e absurda (aquilo que não pode se ouvido) seres humanos temos sentimentos?
Qual o propósito? O porquê?????????????????????????
Não, não ajuda na sobrevivência. Não há justificativa evolutiva.
É uma merda. Só isso. Só. Isso.
Temos a racionalidade. Temos os sentimentos. O primeiro sim, teria um porquê. Nascemos desprovidos de carapaças, asas, chifres. Somos, anatomicamente, um fracasso para o fim da sobrevivência. Mas temos raciocínio.
E os sentimentos? Pra que sentimos? Amor?
Alegria? Tristeza?
Os sentimentos bons (sei que isso depende do ponto de vista, mas considero aquilo que é bom de sentir, que é prazeroso), até alguns estudiosos da medicina poderiam dizer: "ah, o estado de amor (ou felicidade, alegria, whatever) relaxa, libera hormônios, diminui o estresse e blá blá."
Mas, e o contrário? Quando passamos a sentir o contrário? Ou pior, quando somos obrigados a sentir o contrário?
Ajuda em quê, pergunto aos médicos?
Porra nenhuma.
Só há retrocessos.
Pode ser útil no amadurecimento, na evolução da psiquê.
Mas, sinceramente... A dor que causa não vale a pena.
No final, seremos criaturas hiper maduras (oh, que lindo!), mas cheias de cicatrizes. E pra quê? Se fosse pra ajudar em outras relações... Mas e as pessoas que passam a vida inteirinha pa aprender "certas lições"? Morre, e aí? Só sofreu.
(Também não vou entrar em nenhum embate religioso aqui. Já basta o que sinto, peloamordedeus.)
Normalmente, acho aquela máxima "melhor sentir um dia e perder do que nunca sentir" verdadeira.
Mas hoje... Acho melhor não sentir nada. Nunca. Porque o que vem depois... E depois... Às vezes, passam-se meses, anos... E a coisa não melhora. Toma proporções de tal profundidade que nunca achei possível.
Proporções requintadas.
Agora, sou mais partidária da frase: "o tempo não cura nada. O tempo só tira o incurável do foco de atenção."
Pois é. E vira e mexe, ele volta, apoteótico. Querendo toda a atenção pra ele. Uma plateia. Palmas.
Mas não. Não posso deixar, não posso. Algo tem que ser feito. Ele (o incurável), tem que sumir. Ou melhor, ser sumido. Alguém precisa sequestrá-lo pra mim. Dar um chá de sumiço nele. Não pode entrar no palco. Quer dizer, não pode ter outras apresentações. A prévia já deu. Já foi suficiente pra mim.
E que alguém será esse, a raptar e matar o incurável?
Estou no aguardo. Sim, sou fraca. Melhor, estou fraca. Sozinha não dou conta.
Passivamente me encontro.
É como me sinto hoje. Na expectativa de um novo espetáculo.
~.~.~.~.~.~.~.~
É, terminando... Vejo que ainda tenho esperanças. rs
Meu caso não é de todo mal.
~.~.~.~.~.~.~.~
Não curto me expor tanto assim. Mas fez-se de extrema urgência hoje.
sábado, 25 de dezembro de 2010
O pulso ainda pulsa... a impusividade.
A pessoa entrou, esbaforida, nervosa. Todos ao redor poderiam dizer que algo não estava certo com ela. Um olhar meio de louca. Chegou ao balcão da farmácia, bateu nele e chamou o atendente. Este olhou assustado pro ser humano em estado lamentável. Disse a pessoa:
- Por favor, gostaria de saber se tem um remédio... Sei que eu deveria consultar um médico, mas não tenho tempo pra isso.
- Que remédio seria, senhora?
- Não sei o nome! Você que tem que me dizer...
- Pra que seria então?
- Pra impulsividade.
Um momento de silêncio, o atendente pensou, olhou para as prateleiras cheias de remédios, e disse:
- Bom... tem o passivotril... Tem o genérico dele também, o passivolida de calmil.
- Hum, ótimo. Mas em quanto tempo começa a fazer efeito? Porque preciso pra ontem.
(Nessa hora a pessoa dá uma tremidinha, como se estivesse com frio. Lá fora fazia 32°C.)
- Olha, é um tratamento meio demorado... Começa a fazer efeito depois de duas semana de uso, mais ou menos.
- Não, não pode ser.
- Também tem uma outra opção... Aqui do lado tem uma farmácia de homeopatia, eles tem pra impulsividade o refletionum aeternum. Mas creio que demore mais pra fazer efeito que o passivotril...
Com um murro na bancada:
- Não! Não posso esperar, você não tá me entendendo.
(Desespero já tomando conta da pessoa.)
- Senhora, é o que dá pra fazer.
(Agora se alterando, aumentando o tom da voz. Em clima de confissão.)
- As pessoas acham que é fácil ser impulsiva. Somos vistos como gente engraçadinha, com um parafuso a menos. Mas digo o quanto se sofre. E não adianta vir com esse papo de pensar duas vezes antes de fazer. Em alguns casos, até podemos pensar duas, três, quatrocentos e vinte e sete vezes. Mas não deixaremos de agir. Talvez, tenhamos um pequeno "defeito" no crivo da razão. Até tentamos, mas a coisa acontece. Falamos, fazemos. E haja força de vontade de aturar as consequências. Arrependimentos... Que depois são transponíveis, com grande maestria. Já nos acostumamos. Mas chega uma hora em que não aguentamos. Bem, talvez não todos. Alguns até gostam de ser impulsivos, são adeptos do "melhor se arrepender do que não fiz do que do que fiz". Mas eu não. Não aguento mais. Não. Aguento. Cansei. Definitivamente.
Após essa verborragia histérica, a pessoa parece se acalmar. O atendente, resignado, diz:
- Bom senhora... Há uma outra opção. Talvez não tão fácil de ser aceita, mas com certeza mais rápida e eficaz.
(Ela quase pula em cima do atendente, numa pulsão desvairada.)
- O quê?? Diz agora, por favor. É algo injetável? Vai doer? Não me importo.
- É, pode-se dizer que sim... Mas quando for, na mesma hora você não sentirá mais NADA.
- Então, melhor ainda. Cadê?
- Mas não vende aqui. Só naquela lojinha do outro lado da rua. Ali. (Disse apontando pra fora da farmácia, a pessoa acompanhando a mão e o dedo em riste, e mirando nervosamente pra onde apontava.)
Do outro lado da rua, uma lojinha de armas.
A pessoa teve suas feições completamente modificadas. Parecia que tinha alçado a paz, o nirvana, encontrou a luz, escolha qualquer dessas epifanias que todas descreverão.
E sem se virar, agradeceu, e caminhou... Rumo à saída, à rua... ao outro lado da rua. À pequena lojinha de armas.
- Por favor, gostaria de saber se tem um remédio... Sei que eu deveria consultar um médico, mas não tenho tempo pra isso.
- Que remédio seria, senhora?
- Não sei o nome! Você que tem que me dizer...
- Pra que seria então?
- Pra impulsividade.
Um momento de silêncio, o atendente pensou, olhou para as prateleiras cheias de remédios, e disse:
- Bom... tem o passivotril... Tem o genérico dele também, o passivolida de calmil.
- Hum, ótimo. Mas em quanto tempo começa a fazer efeito? Porque preciso pra ontem.
(Nessa hora a pessoa dá uma tremidinha, como se estivesse com frio. Lá fora fazia 32°C.)
- Olha, é um tratamento meio demorado... Começa a fazer efeito depois de duas semana de uso, mais ou menos.
- Não, não pode ser.
- Também tem uma outra opção... Aqui do lado tem uma farmácia de homeopatia, eles tem pra impulsividade o refletionum aeternum. Mas creio que demore mais pra fazer efeito que o passivotril...
Com um murro na bancada:
- Não! Não posso esperar, você não tá me entendendo.
(Desespero já tomando conta da pessoa.)
- Senhora, é o que dá pra fazer.
(Agora se alterando, aumentando o tom da voz. Em clima de confissão.)
- As pessoas acham que é fácil ser impulsiva. Somos vistos como gente engraçadinha, com um parafuso a menos. Mas digo o quanto se sofre. E não adianta vir com esse papo de pensar duas vezes antes de fazer. Em alguns casos, até podemos pensar duas, três, quatrocentos e vinte e sete vezes. Mas não deixaremos de agir. Talvez, tenhamos um pequeno "defeito" no crivo da razão. Até tentamos, mas a coisa acontece. Falamos, fazemos. E haja força de vontade de aturar as consequências. Arrependimentos... Que depois são transponíveis, com grande maestria. Já nos acostumamos. Mas chega uma hora em que não aguentamos. Bem, talvez não todos. Alguns até gostam de ser impulsivos, são adeptos do "melhor se arrepender do que não fiz do que do que fiz". Mas eu não. Não aguento mais. Não. Aguento. Cansei. Definitivamente.
Após essa verborragia histérica, a pessoa parece se acalmar. O atendente, resignado, diz:
- Bom senhora... Há uma outra opção. Talvez não tão fácil de ser aceita, mas com certeza mais rápida e eficaz.
(Ela quase pula em cima do atendente, numa pulsão desvairada.)
- O quê?? Diz agora, por favor. É algo injetável? Vai doer? Não me importo.
- É, pode-se dizer que sim... Mas quando for, na mesma hora você não sentirá mais NADA.
- Então, melhor ainda. Cadê?
- Mas não vende aqui. Só naquela lojinha do outro lado da rua. Ali. (Disse apontando pra fora da farmácia, a pessoa acompanhando a mão e o dedo em riste, e mirando nervosamente pra onde apontava.)
Do outro lado da rua, uma lojinha de armas.
A pessoa teve suas feições completamente modificadas. Parecia que tinha alçado a paz, o nirvana, encontrou a luz, escolha qualquer dessas epifanias que todas descreverão.
E sem se virar, agradeceu, e caminhou... Rumo à saída, à rua... ao outro lado da rua. À pequena lojinha de armas.
terça-feira, 19 de outubro de 2010
To hell with the cats, or beyond
Caminhando na noite, confusa
Luz difusa
Assombra
Uma sombra
Que pensei ser um gato, saindo do mato
Não é primeira vez
Felino tem essa mania, já fez
A vocação pro parecer fluir, flutuar
De noite, ao luar
Parece que seu poder aumenta, teoria que se sustenta
Por povos, e adoradores
desses não amadores
Na arte de esvaecer, e aparecer
Quando tu menos esperas...
Deveras
Seres da noite, da escuridão. Podem causar pavor, com a destreza inata para ocultação
Ou manar amor, no âmago do mais amargo, sofredor
Digitígrado... Contigo, Como lido?
E não muito certa, mas teorizo, como nunca, desperta:
Oferecem contato com algo metafísico, portal a algo além...
E quem dirá que era sombra, ou gato, ou... quem?
*Tentativa absurda e incipiente de fazer poesia. E com rimas, que coisa, não?
Mas sem vergonha o suficiente pra postar.
Luz difusa
Assombra
Uma sombra
Que pensei ser um gato, saindo do mato
Não é primeira vez
Felino tem essa mania, já fez
A vocação pro parecer fluir, flutuar
De noite, ao luar
Parece que seu poder aumenta, teoria que se sustenta
Por povos, e adoradores
desses não amadores
Na arte de esvaecer, e aparecer
Quando tu menos esperas...
Deveras
Seres da noite, da escuridão. Podem causar pavor, com a destreza inata para ocultação
Ou manar amor, no âmago do mais amargo, sofredor
Digitígrado... Contigo, Como lido?
E não muito certa, mas teorizo, como nunca, desperta:
Oferecem contato com algo metafísico, portal a algo além...
E quem dirá que era sombra, ou gato, ou... quem?
*Tentativa absurda e incipiente de fazer poesia. E com rimas, que coisa, não?
Mas sem vergonha o suficiente pra postar.
quarta-feira, 13 de outubro de 2010
My way
Acordou como nasce, das profundezas do sono e de algum sonho confuso, sem muita noção do que estava acontecendo. Como sempre. Algo automático. Levantou, tomou banho, café e foi trabalhar. Quase sempre encontrava as mesmas pessoas passando, mas não poderia dizer. Começou a acordar, e com ele (o ato), a pensar, como de praxe. Sentiu-se acuada pelas pressões da vida. Tinha que trabalhar com o que mais se aproximasse do que gosta e como o sistema dita. Ganhar dinheiro. Aí vem a próxima fase (como um vídeo-game mesmo, essa vida): Precisa sair de casa. Ganhar outra casa. Viver outra vida. Não, não outra vida. Mas uma amálgama do seu eu anterior e posterior, como um divisor de águas. Incrível como não tinha medo. Quer dizer, até tinha, em alguns momentos de lucidez. Mas eram raros, não se deixava levar. E como momentos não lúcidos podem ser o melhor? Pois eles é que dão a coragem de fazer o que se quer, sem pensar muito sobre. Se jogar do precipício. De olhos fechados. Tiro no escuro. Num jogo mesmo de sorte. Escolham uma metáfora, todas bem aplicáveis. Se daria certo, bom, depois veria isso. Sentia ser esse mesmo o caminho a seguir. Morar sozinha. A sua melhor companhia era ela mesma, então, raios, não teria problemas com o inquilino. Só aumentaria sua cota de responsabilidades. Pagar contas? Sai na urina. Normal. Quer dizer, quando se lembra. Arrumar casa... Aí sim, um problema. Nunca foi muito organizada. Bom, diarista duas vezes por mês e o resto vai levando. Cozinhar? Gostava e sabia. Só não sabia se não teria preguiça. Fazer comprar no mercado? Algo meio complicado. Pois por mais que adorasse cozinhar, não gostava de escolher os alimentos. Frutas e legumes então? Chato. Mas era preciso. Mas o que era mais preciso ainda, era a tão almejada liberdade. Liberdade... Quase nunca tinha a chance de pronunciar tal palavra. Numa conversa com colegas de trabalho, disse ser essa a única recompensa de algumas atribuições que estariam por vir. Teria liberdade. Pra si mesma. Ser e fazer o que bem entende. Não dar mais satisfações. Isso soa como um sonho distante, em nuvens fofas e límpidas, e celestiais. Era algo que sempre quis. Sempre mesmo, já ensaiando nas primeiras independências da vida.
Desde pequena, quando lia nos seus livros suas heroínas independentes e felizes com isso, já sentia querer o mesmo. Feminismo soa muito forçado, não é isso. É simplesmente querer ser e ser de fato, o que se quer, independente do gênero do corpo em que foi "abençoada" sua alma. Sempre se indignou e rejeitou viver como a porra da sociedade quer ver uma mulher viver. Era o que era. Muitas vezes achou-se homem, no sentido do ser livre que é atribuído pela própria sociedade aos seres masculinos, por sentir essa liberdade transbordando pelos seus poros (tirando a parte, claro, da violência que se vê por aí. Ficar perambulando pela rua madrugada a fora, no Rio de Janeiro, não é independência, mas burrice). Sempre se deu melhor com os homens, pois entre eles não há travas de comportamento. Falam, agem como querem. Mas tem que admitir sentir muito orgulho e satisfação pelas mulheres que na vida seguem caminhos diferentes dos pré-traçados às mulheres em geral pela sociedade e/ou suas famílias. Uma conquista? Sim, é fato. Vida bandida, vida de cão, vida filha da puta mesmo essa. Então ser mulher era mais uma luta a se lutar. Mas não, não é feminismo. É tão demodê... nem só por isso. Separar as pessoas pelo seu gênero, francamente, só serve na hora das relações, digamos, no sentido bíblico (risos). Nas outras relações, não gosta de fazer distinções. Mas creio que muitas poucas pessoas pensem assim. Os próprios homens, que ela tão admira, fazem isso. Quando uma mulher está no meio, não tem como agirem do mesmo jeito. Paciência. Porém, admite, sente um pouco de repulsa e desprezo por mulheres femininas demais. Digo feminino aqui pejorativamente mesmo. Mas, contradizendo-se, ela também tem seu lado feminino. Fato, honesto. Admite (muitas admissões...).
Bom, já fugindo do que pensava inicialmente. Mas devaneios são inerentes ao ser humano. Nos levam a lugares muito diferentes do ponto de partida. E assim nascem as boas ideias. A quem se deixa levar, sem amarras de qualquer tipo, sem recalques (ai, Freud...), alcança coisas que, possivelmente, nunca seriam pensadas.
Volta então agora a sua questão principal: sua liberdade. Tudo novo. Conquistas. Cada dia vai matar um leão (não, leão não, gosta de felinos. Vai descascar um abacaxi por dia). Mas sabe ser necessário. E se sente contente. Como nunca. Só bate, às vezes, aquele medo normal (na verdade, não é medo. É cautela. Aff... Detesta essa palavra, tão covarde... medo soa mais íntegro. Que coisa), biologicamente incrustado nos seres humanos: inconscientemente, colocar na balança as chances de tal ato dar certo e não dar. Mas segue otimista seu caminho, otimismo esse propulsado pelo novo, pelo inesperado, coisa que adora e não vive sem em sua vida. É como um segundo tipo de ar que respira. Só aspirado pelos pulmões da alma. Espera dar certo. Vibra, gosta de mudanças radicais. Sair explorando, descobrindo. Vai precisar muito de sua boca. Pena que não é pra ir a Roma, mas, talvez, pra achar lojinhas, mercados (já pensando no seu novo bairro)... E vai se sentir feliz com isso. Se bastar pra ela mesma. Pega o ônibus e segue. Seu caminho. Meu caminho. Meu jeito.
Trecho da música My Way, famosa na voz de Frank Sinatra, mas composta por Claude François, Jacques Revaux e Paul Anka. Rola uma identificação:
"...Yes there were times, I'm sure you knew
When I bit off more than I could chew
But through it all when there was doubt
I ate it up and spit it out
I faced it all and I stood tall
And did it my way
I've loved, I've laughed and cried
I've had my fill, my share of losing
And now as tears subside
I find it all so amusing
To think I did all that
And may I say, not in a shy way
Oh no, oh no, not me
I did it my way
For what is a man, what has he got?
If not himself, then he has naught
To say the things he truly feels
And not the words of one who kneels
The record shows, I took the blows
And did it my way."
Desde pequena, quando lia nos seus livros suas heroínas independentes e felizes com isso, já sentia querer o mesmo. Feminismo soa muito forçado, não é isso. É simplesmente querer ser e ser de fato, o que se quer, independente do gênero do corpo em que foi "abençoada" sua alma. Sempre se indignou e rejeitou viver como a porra da sociedade quer ver uma mulher viver. Era o que era. Muitas vezes achou-se homem, no sentido do ser livre que é atribuído pela própria sociedade aos seres masculinos, por sentir essa liberdade transbordando pelos seus poros (tirando a parte, claro, da violência que se vê por aí. Ficar perambulando pela rua madrugada a fora, no Rio de Janeiro, não é independência, mas burrice). Sempre se deu melhor com os homens, pois entre eles não há travas de comportamento. Falam, agem como querem. Mas tem que admitir sentir muito orgulho e satisfação pelas mulheres que na vida seguem caminhos diferentes dos pré-traçados às mulheres em geral pela sociedade e/ou suas famílias. Uma conquista? Sim, é fato. Vida bandida, vida de cão, vida filha da puta mesmo essa. Então ser mulher era mais uma luta a se lutar. Mas não, não é feminismo. É tão demodê... nem só por isso. Separar as pessoas pelo seu gênero, francamente, só serve na hora das relações, digamos, no sentido bíblico (risos). Nas outras relações, não gosta de fazer distinções. Mas creio que muitas poucas pessoas pensem assim. Os próprios homens, que ela tão admira, fazem isso. Quando uma mulher está no meio, não tem como agirem do mesmo jeito. Paciência. Porém, admite, sente um pouco de repulsa e desprezo por mulheres femininas demais. Digo feminino aqui pejorativamente mesmo. Mas, contradizendo-se, ela também tem seu lado feminino. Fato, honesto. Admite (muitas admissões...).
Bom, já fugindo do que pensava inicialmente. Mas devaneios são inerentes ao ser humano. Nos levam a lugares muito diferentes do ponto de partida. E assim nascem as boas ideias. A quem se deixa levar, sem amarras de qualquer tipo, sem recalques (ai, Freud...), alcança coisas que, possivelmente, nunca seriam pensadas.
Volta então agora a sua questão principal: sua liberdade. Tudo novo. Conquistas. Cada dia vai matar um leão (não, leão não, gosta de felinos. Vai descascar um abacaxi por dia). Mas sabe ser necessário. E se sente contente. Como nunca. Só bate, às vezes, aquele medo normal (na verdade, não é medo. É cautela. Aff... Detesta essa palavra, tão covarde... medo soa mais íntegro. Que coisa), biologicamente incrustado nos seres humanos: inconscientemente, colocar na balança as chances de tal ato dar certo e não dar. Mas segue otimista seu caminho, otimismo esse propulsado pelo novo, pelo inesperado, coisa que adora e não vive sem em sua vida. É como um segundo tipo de ar que respira. Só aspirado pelos pulmões da alma. Espera dar certo. Vibra, gosta de mudanças radicais. Sair explorando, descobrindo. Vai precisar muito de sua boca. Pena que não é pra ir a Roma, mas, talvez, pra achar lojinhas, mercados (já pensando no seu novo bairro)... E vai se sentir feliz com isso. Se bastar pra ela mesma. Pega o ônibus e segue. Seu caminho. Meu caminho. Meu jeito.
Trecho da música My Way, famosa na voz de Frank Sinatra, mas composta por Claude François, Jacques Revaux e Paul Anka. Rola uma identificação:
"...Yes there were times, I'm sure you knew
When I bit off more than I could chew
But through it all when there was doubt
I ate it up and spit it out
I faced it all and I stood tall
And did it my way
I've loved, I've laughed and cried
I've had my fill, my share of losing
And now as tears subside
I find it all so amusing
To think I did all that
And may I say, not in a shy way
Oh no, oh no, not me
I did it my way
For what is a man, what has he got?
If not himself, then he has naught
To say the things he truly feels
And not the words of one who kneels
The record shows, I took the blows
And did it my way."
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